Ruim para a Argentina, ruim para o Brasil

O fiasco do ajuste gradualista de Macri na Argentina é ruim para o Brasil por razões diretamente econômicas e também por razões políticas: desacredita a agenda ortodoxa e liberal sem que, na realidade, esta tenha sido implementada nos níveis mínimos necessários para tirar a economia do buraco causado pelas políticas populistas.

Fernando Dantas

18 de abril de 2019 | 19h35

A crise argentina se agrava à medida que se aproximam as eleições gerais de outubro. A via gradualista escolhida pelo presidente Mauricio Macri para limpar o entulho econômico populista dos anos de kirchnerismo não deu certo, e agora ele corre o risco de ser varrido do poder, com o possível retorno de políticas econômicas antiliberais e intervencionistas.

Macri chega ao fim do seu mandato tropeçando em campo, com medidas como o congelamento de preço de 60 produtos da cesta básica e a suspensão da elevação de tarifas de eletricidade, transportes e pedágios (o que significa mais subsídios bancados pelo tesouro).

É uma gambiarra eleitoreira que bate de frente com tudo o que a sua chegada ao poder aparentava significar em termos de virar a página dos anos populistas de Néstor e Cristina Kirchner.

A inflação argentina em março atingiu 4,7%, mais do que a inflação anual do Brasil. Em 12 meses até março (inclusive), a inflação argentina foi de 54,7%.

É exatamente o desespero de chegar ao fim de um mandato supostamente de arrumação de casa com inflação em disparada, desmoralizante acordo com o FMI, desvalorização drástica do peso e o recorrente (na história Argentina) problema de endividamento externo que empurra Macri na direção de medidas populistas de curtíssimo prazo de validade – e que todos sabem que são contraproducentes em termos de resolver de forma consistente o problema inflacionário.

Para o Brasil, é um péssimo negócio ver o seu principal vizinho em problemas novamente, em pelo menos dois importantes aspectos.

O primeiro é o diretamente econômico, já que a Argentina é um dos mais importantes parceiros comerciais do Brasil. O PIB argentino recuou 2,5% em 2017 e, segundo a projeção do FMI, deve cair 1,2% em 2019.

Segundo as contas da LCA, o colapso não antecipado da economia argentina explica quase a metade da frustração de crescimento do PIB brasileiro em 2018.

A Argentina também sofre com o mau desempenho da economia brasileira, num mecanismo de retroalimentação que vale para os tempos de vacas gordas assim como para o de vacas magras – ambos os países estão firmemente atolados neste segundo campo no momento.

E há, finalmente, a esfera política. O primeiro mandato de Macri reproduz um velho padrão da história econômico-política de muitos países latino-americanos.

Depois de um boom de commodities, cavalgado por governantes populistas, e da terra arrasada que se segue quando a farra chega ao fim, um governo “ortodoxo” chega ao poder, saudado pelo mercado e pelo establishment local e internacional, para “arrumar a casa”.

As aspas em “ortodoxo” se devem ao fato de que ortodoxa mesmo é apenas a equipe econômica, mas não tanto o presidente e muito menos o ambiente sócio-político em que o novo governo terá que atuar.

A equipe econômica ortodoxa geralmente tem um “plano A” na cabeça, de ajuste rápido e incisivo, mas as condições políticas acabam levando ao plano B, um ajuste gradual e muito diluído e incompleto.

A equipe econômica sabe que as chances de o plano B “curar” o paciente da ressaca do populismo são escassas, mas governo nenhum diz aos governados que suas políticas vão dar errado. Assim, finge-se que tudo está caminhando bem e reza-se para que algum milagre faça as coisas darem certo, apesar de se estar fazendo muito menos “a coisa certa” do que seria necessário.

Geralmente, como no caso de Macri, as coisas dão errado.

Em países como Brasil e Argentina, boa parte da intelligentsia centrista tem um rescaldo de esquerdismo antigo e anticapitalismo na alma. E isso faz com que esse grupo, vital como suporte social de políticas de “arrumação de casa”, tenda a ser muito leniente com as forças políticas que lutam para diluir ao máximo o “Plano A”, e tenda a ser extremamente severo com os ortodoxos quando o superdiluído plano B não entrega os resultados almejados.

No Brasil, um bom exemplo desse fenômeno são os incontáveis mitos, distorções e mentiras sobre a Previdência e a reforma que quase diariamente Pedro Nery, consultor legislativo do Senado, se dispõe pacientemente a desmentir e triturar, numa luta heroica e quase insana contra o que o prêmio Nobel Paul Krugman costuma chamar, num contexto diferente, de “argumentos zumbi” – aquele que o crítico tem que “matar” todo o dia apenas para que “ressuscitem” durante a noite e se reapresentem para mais um embate.

De qualquer forma, os problemas do governo Macri ganham repercussão regional, e ajudam a reforçar, no Brasil inclusive, a narrativa de que ajustes ortodoxos não dão certo – o que é música para o ouvido dos populistas.

Brasil e Argentina são colecionadores de muitas décadas perdidas em termos de desenvolvimento socioeconômico (Argentina “à frente”, porque parou primeiro), enquanto países asiáticos muito mais pobres no pós-guerra nos ultrapassam em termos de renda, melhoria sustentada de padrão de vida, educação, controle do crime, infraestrutura urbana etc.

O fiasco do governo Macri ameaça ser mais um capítulo dessa triste história. E aqui, onde Paulo Guedes se agarra ao seu plano A como talvez nenhum outro chefe de equipe econômica na história recente, o risco é que a algazarra política patrocinada pelo próprio governo acabe levando a plano nenhum.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/4/19, quinta-feira.

Tendências: