Saldo comercial em alta

Projeções de importantes instituições já colocam saldo comercial de 2021 em cerca de US$ 70 bilhões ou mais. Affonso Celso Pastore vê robustos saldos externos (incluindo conta corrente), mas diz que apreciação do real depende de reduzir risco fiscal.

Fernando Dantas

07 de abril de 2021 | 19h46

A expectativa mediana de mercado para o saldo comercial em 2021 está estacionada em US$ 55 bilhões desde o início do ano, mas diversas instituições têm números bem mais avantajados.

O Bradesco, por exemplo, prevê US$ 67 bilhões. O Itaú, US$ 77 bilhões. Santander, US$ 78 bilhões. O Banco Central elevou a projeção do saldo comercial este ano de US$ 53 bilhões para US$ 70 bilhões entre os Relatórios Trimestrais de Inflação (RTI) de dezembro de 2020 e de março último.

Affonso Celso Pastore, economista, consultor e ex-presidente do Banco Central (BC), diz que trabalha com uma projeção de superávit comercial em 2021 de US$ 80 bilhões. Essa e outras projeções estão sendo revistas até o início da próxima semana.

Pastore projeta exportações em torno de US$ 260 bilhões este ano. Ele nota que a perspectiva de crescimento global em 2021 o surpreendeu positivamente. Os Estados Unidos, motor da economia global, estão vacinando sua população em grande velocidade, permitindo uma reabertura da economia mais veloz.

Além disso, há o pacote fiscal de US$ 1,9 trilhão de Joe Biden, a ser gasto inteiramente este ano, e correspondente a cerca de 10% do PIB norte-americano. “É um efeito gigantesco”, diz o economista.

O FMI acaba de revisar suas projeções para o crescimento em 2021 do mundo e dos Estados Unidos de 5,5% e 5,1%, respectivamente, para 6% e 6,4%.

Por outro lado, prossegue Pastore, há um processo de forte alta do preço das commodities, puxado pela retomada da China. A elevação do preço das matérias-primas negociadas internacionalmente também está ligada ao enfraquecimento do dólar.

Como explica o economista, a cotação do dólar medida pelo dollar index (contra uma cesta de sete moedas mais relevantes para o comércio exterior dos EUA) se desvalorizou.

Ele vê o movimento ligado à (praticamente) zeragem da taxa básica de juros norte-americana, os Fed Funds, em abril do ano passado e à recompra pelo Fed, BC dos EUA, de US$ 2 trilhões em títulos do Tesouro. Essas ações achataram a curva de juros dos Estados Unidos, levando-a para o intervalo entre zero e 0,5% por um bom período (já subiu mais recentemente para cima desse limite a partir de cinco anos).

Assim, houve enfraquecimento do dólar e a busca de rentabilidades em outras moedas (que se valorizaram, portanto), incluindo vários emergentes.

O real, porém, ficou fora da festa por causa do risco fiscal brasileiro, segundo Pastore. Ele acrescenta que, ao não usufruir da liquidez e se apreciar, o real ficou na companhia das moedas de dois países com crises de balanço de pagamentos, Argentina e Turquia – no caso, suas moedas até depreciaram.

Em relação às importações, Pastore nota que sua projeção é comedida, porque ele vê a vacinação muito atrasada no Brasil, levando a segunda onda a ter um impacto negativo muito expressivo na atividade econômica (economia mais fraca reduz as importações).

Os indicadores desse período crítico iniciado em fevereiro, no entanto, ainda não saíram, com exceção de índices de confiança, como dos consumidores, que vieram bem ruins.

Uma questão que Pastore e sua equipe vão tentar analisar com mais detalhe na rodada atual de revisão das projeções são as importações de plataformas de petróleo pela Petrobrás, que tiveram um impacto forte de aumento das importações totais no primeiro trimestre.

A dúvida em que dimensão o movimento é explicado por uma progressiva mudança na Petrobrás de contratos de aluguel para compras finais das plataformas que já estão sendo utilizadas. Se for uma política sistemática desse tipo, esse aumento de importação, ainda que de equipamentos já em uso no Brasil, pode continuar a pesar para frente.

Um resultado mais forte da balança comercial, naturalmente, influenciará positivamente a conta corrente, na qual o economista vê possibilidade de um saldo positivo de US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões este ano.

Ele nota que as viagens internacionais, que vinham gerando um resultado líquido negativo em torno de US$ 20 bilhões anuais pré-pandemia, devem ir para perto de zero. Com a virulência da segunda onda, o Brasil virou um “pária” internacional, e viagens para dentro e para fora do País estão paralisadas.

Um outro item do balanço de pagamentos que exige atenção, segundo Pastore, são os fretes, em que houve forte alta no final do ano passado.

Ele aponta que o Brasil está entrando nessa onda de crescimento global e alta das commodities com o real em nível extremamente depreciado.

Mas Pastore descarta a ideia de que a perspectiva de polpudos superávits externos levem automaticamente o real a se reapreciar.

“Não conheço nenhuma teoria em que o saldo comercial explique o câmbio, é o câmbio que determina o saldo comercial, e o câmbio é formado no mercado de ativos”, ele diz.

Pastore fez um exercício comparativo entre o Brasil e vinte países, reunindo uns poucos desenvolvidos, alguns emergentes de baixo risco, outros emergentes que costumavam ter risco maior do que o Brasil, e ainda outros de nível semelhante.

Como já mencionado, apenas as moedas de Brasil, Turquia e Argentina não se apreciaram na recente onda de liquidez global.

“Se tivermos uma redução de risco que traga capitais para o Brasil, o real pode ser valorizar, mas isso exige mudança do quadro fiscal”, conclui o economista.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/4/2021, quarta-feira.