Saldo maior em 2015?

Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) deve rever para cima superávit comercial de 2015, mas razão é queda das importações.

Fernando Dantas

15 de junho de 2015 | 23h47

A projeção de superávit da balança comercial brasileira em 2015 da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) deve aumentar na revisão a ser feita no próximo mês, segundo o presidente da entidade, José Augusto de Castro. A projeção atual é de exportações em torno de US$ 199 bilhões e importações em US$ 194 bilhões, com saldo de US$ 5 bilhões.

Segundo Castro, “as exportações podem até subir um pouquinho, mas a diferença virá mesmo das importações, que estão caindo bem mais do que o imaginado”. Ele acrescenta que “a projeção do saldo deve subir, não sei se chegará a US$ 10 bilhões”.

Na primeira semana de junho, o resultado da balança foi particularmente forte, com saldo de US$ 1,976 bilhão. As exportações atingiram US$ 4,661 bilhões, com avanço da média diária de 13,9% em relação à primeira semana de junho de 2014. Já as importações foram de US$ 2,685 bilhões na primeira semana de junho deste ano, com recuo da média diária de 25,9% em relação ao mesmo período do ano passado.

No caso das exportações, porém, a primeira semana de junho incluiu uma plataforma de petróleo (US$ 690 milhões), além da aceleração dos embarques de soja, por temor de queda no preço, e vendas externas de petróleo e derivados particularmente fortes, com aumento de 111% na comparação com a média diária de junho de 2014. Segundo Castro, estes eventos deram um impulso atípico nas exportações na primeira semana de junho. No ano, as exportações caem 15,2%.

Mas o analista considera que as exportações devem atingir seu prognóstico atual para 2015 (US$ 199 bilhões, com queda de 11,6% ante 2014), ou até serem ligeiramente maiores. Ele observa que há avanços em termos de quantidades entre alguns dos principais itens da pauta de exportações brasileira: na sua estimativa para o ano, 5% no caso da soja, 7% no minério de ferro e 100% em petróleo e derivados. O problema é a queda de preços, mas Castro avalia que “o petróleo parou de cair, o minério até esboça uma reação e a soja já está precificada”.

Em termos de manufaturados, teoricamente mais sensíveis à desvalorização cambial, o único sinal de reação são as vendas aos Estados Unidos. No acumulado até maio, as exportações brasileiras para o mercado americano registraram alta (em relação ao mesmo período de 2014) de 6,7%.        As vendas de produtos básicos foram de US$ 1,674 bilhão, com alta de 32,7%; as de semimanufaturados, de US$ 1,797 bilhão, com alta de 13,6% por ano; e as de manufaturados de US$ 5,496 bilhões, com elevação de 3,13% – neste último caso, é a primeira vez que isso ocorre no ano, segundo Castro.

O pequeno aumento das exportações de manufaturados para o mercado americano contrasta com a queda no ano das exportações totais desta categoria de 10,8% – até maio foram US$ 27,679 bilhões, comparado com US$ 31,334 bilhões no mesmo período de 2014.

O presidente da AEB lamenta que “por ideologia o mercado americano tenha sido abandonado”, com sua fatia nas exportações brasileiras caindo de 25% para 12% entre 2002 e hoje. Segundo Castro, os Estados Unidos são atualmente a única economia com força para absorver significativamente os manufaturados brasileiros. Na América Latina, o outro grande mercado, vários países estão reduzindo importações em função (como no caso brasileiro) dos efeitos da queda da receita com exportação de commodities.

O problema, ele diz, é que a participação do mercado americano como destino das exportações brasileiras já não é suficiente para que avanços lá tenham impacto significativo nos números totais.

Pelo lado das importações, há uma queda acumulada de 18,4% até a primeira semana de junho. Na ponta, o recuo é ainda mais forte. Em maio de 2015, as importações foram 26,6% menores do que no mesmo mês de 2014. Na primeira semana de junho, a queda foi de 25,9%. Em maio, houve quedas generalizadas, de 24,3% para bens de capital; 16,1% para bens de consumo; 25,3% para matérias primas e bens intermediários; e 44,3% para combustíveis e lubrificantes.

Castro considera que o recuo das importações em 2015 já reflete tanto a queda da atividade econômica quanto o efeito do câmbio. Juntando-se à queda menor das exportações, o mergulho das importações deve produzir o que o presidente da AEB chama ironicamente de “um superávit comercial negativo”, ou um saldo positivo com forte queda da corrente de comércio.

Ele nota que seus números projetam uma corrente de comércio em 2015 inferior a US$ 400 bilhões, o que significa um recuo de mais de US$ 80 bilhões em relação ao pico de US$ 482,3 bilhões em 2011, e de mais de US$ 50 bilhões ante os US$ 454,2 bilhões de 2014. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas e jornalista da Broadcast  

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 10/6/15, quarta-feira.

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