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Scheinkman e a produtividade das empresas

Fernando Dantas

09 de setembro de 2013 | 23h58

O economista brasileiro José Alexandre Scheinkman, da Universidade Princeton, esteve no Brasil em duas ocasiões recentes, tratando do tema da produtividade em seminários no Insper, em São Paulo, e no Ibmec, no Rio.

Considerado um dos economistas brasileiros de maior prestígio acadêmico, Scheinkman nota que os estudos de produtividade focam cada vez mais nas empresas. A diferença de produtividade entre um país desenvolvido, como os Estados Unidos, e emergentes, como Brasil, China e Índia, deve-se em boa medida ao fato de que há um abismo menor de produtividade entre as empresas americanas, quando comparado com o que acontece entre as empresas de cada um destes outros países.

Para o Brasil, Scheinkman recomenda que as reduções de impostos conferidas hoje a pequenas empresas em programas como o Super Simples sejam estendidas a todas as empresas, para cria um ambiente de competição onde sobrevivam as mais eficientes. O economista, que retornou ontem aos Estados Unidos, falou também sobre a economia americana, a desvalorização do real e sobre a necessidade de melhorar os fundamentos da economia brasileira. A seguir, a entrevista.

 

Como o sr. vê a situação da economia americana hoje?

Acho que a economia americana está relativamente melhor. O setor privado da economia americana é muito dinâmico. Ela tem de onde se recuperar. Gosto de dar o exemplo da telefonia. Quando a crise começou, empresas europeias e asiáticas dominavam a telefonia celular. Agora, os sistemas operacionais, com o do iPhone e do iPad, da Apple, ou o Android, do Google, são americanos, o que é uma vantagem. E tem também o shale gas (gás não convencional de folhelho). Era sabido que havia essas reservas, mas faltava tecnologia para extrair de forma econômica. Mas os Estados Unidos conseguiram desenvolver isso.

Então o sr. está otimista?

Bem, o que descrevi é o lado bom. O que complica na economia americana hoje é o lado político. Uma parte do partido Republicano parece estar adotando a postura do “quanto pior, melhor”. Há votações importantes, que podem ter impacto na economia, como do Orçamento e do aumento do teto da dívida. São barreiras a ultrapassar, e vai depender de os membros mais radicais do Partido Republicano quererem fazer um acordo. Mas os sinais são de que a economia, se não está deslanchando de maneira super rápida, está melhorando de forma incremental.

Como o sr. vê o problema da disparada do dólar no Brasil?

Os políticos brasileiros se preocupam demais com a taxa de câmbio do dia a dia. Havia uma grande preocupação com o chamado “tsunami monetário” (como eram chamadas as injeções de liquidez pelos bancos centrais dos países ricos na fase em que as moedas dos emergentes estavam se valorizando), e agora há preocupação com a desvalorização. É importante lembra que uma das características do câmbio flutuante é que ele flutua. Acho que as pessoas se deveriam preocupar mais com problema estruturais, com os fundamentos da economia brasileira.

A quais questões o sr. se refere?

Mais no curto prazo, um marco regulatório que permita que tenhamos mais investimento privado em infraestrutura. Há a questão que se arrasta da reforma tributária. É importante também acabar com esse processo de escolha de campeões (referência ao apoio do BNDES à consolidação de grandes grupos nacionais). O controle dos preços dos combustíveis é prejudicial não só à capacidade de investimento da Petrobrás, mas também está trazendo perdas para um setor do qual o Brasil deveria ter orgulho, que é o da tecnologia do etanol.

E no longo prazo?

Aí é uma questão de produtividade. Fora do setor agrícola, temos um crescimento da produtividade muito lento, e há razões para isso. Temos uma burocracia e um sistema tributário que são muito complicados. Temos pouco em termos de criação de ciência e tecnologia no Brasil. Se a gente pegar um gráfico começando na década de 90, o Brasil, a China e a Índia produziam anualmente mais ou menos a mesma quantidade de patentes registradas nos Estados Unidos, por volta de 100 cada um deles. Hoje, o Brasil está produzindo por volta de 200 e a China está produzindo seis mil. Não tenho o número da Índia, mas são também milhares. Um aspecto importante é que os países mais capazes de criar tecnologia também são melhores em termos de absorver tecnologias.

O que o estudo da Economia nos diz hoje sobre a produtividade?

Recentemente, os estudos de produtividade têm focado menos em países, e mais nas empresas. A diferença entre a produtividade entre países é explicada pela diferença de produtividade entre as empresas dos países. Este tipo de abordagem microeconômica conta com mais dados, dá para entender melhor. Por exemplo, a diferença entre a empresa mais produtiva e a empresa menos produtiva no Brasil é muito maior do que nos Estados Unidos. Se você compara uma empresa que está no grupo das 10% mais produtivas nos Estados Unidos num determinado setor com uma empresa do grupo das 10% menos produtivas, a diferença é de dois para um. Na China e na Índia, é de cinco para um. Não me consta que tenham feito esse tipo de levantamento no Brasil, mas provavelmente somos parecidos com a China e Índia.

O que pode ser feito, em termos de política econômica, para melhorar a produtividade das empresas brasileiras?

Países como a China, a Índia e o Brasil têm muitas empresas pequenas. No Brasil, eu vejo duas etapas em relação a esta questão. Na primeira, atacamos o problema da pequena empresa informal, criando programas como o Simples e o Super Simples. Isso ajudou, mas como as reduções (de tributos) só se aplicam até determinado tamanho, cria-se uma proteção da competição para as empresas até esse tamanho, e muitas empresas pequenas pouco produtivas sobrevivem quando, num ambiente de competição normal, não sobreviveriam. Eu acho que as reduções de tributos deveriam ser estendidas a todas as empresas, não só as pequenas, o que faria com que tendessem a sobreviver no mercado as empresas mais eficientes.

O sr. sempre foi preocupado com a educação. Como vê hoje esta questão no Brasil?

A gente melhorou em termos de anos de educação, especialmente das gerações mais novas. Mas a qualidade da educação continua muito baixa. Os estudos empíricos mostram que o que realmente importa é a qualidade da educação. Não sou especialista no tema, mas acho que outros países resolveram este problema, como Coreia, Finlândia, mesmo a China vem fazendo progressos. Nós deveríamos olhar o que esses países fizeram, e adotar e aperfeiçoar as experiências bem sucedidas. Não vejo vantagens em tentar criar um método próprio. Nós temos o exemplo do Bolsa-Família, que é uma cópia do programa mexicano do mesmo tipo, e que é um sucesso, melhor do que o Fome Zero que tentamos inventar.

(Fernando Dantas – e-mail: fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News Broadcast, no dia 28/8/2013

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