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Se não tem custo, para que ser seletivo?

John Cochrane, prestigiado economista americano, explica seus temores quanto à ideia de que países já muito endividados podem continuar a gastar sem muita preocupação.

Fernando Dantas

08 de setembro de 2020 | 22h43

Desde a grande crise global de 2008-2009, a economia global, especialmente no mundo desenvolvido, vive tempos estranhos.

O crescimento econômico é muito lento, a inflação baixíssima, os juros mínimos, e até negativos. Nesse contexto, bancos centrais dos países centrais reduziram o juro básico zero, injetam abundante liquidez nas economias e tesouros incorrem em elevadíssimos déficits.

Numa situação normal, mais dinheiro circulando e nas mãos das pessoas deveria estimular a atividade econômica e elevar a inflação, levando à alta dos juros. Mas nada disso está acontecendo.

Com a pandemia, essas políticas expansionistas tiveram uma nova rodada, maior ainda em muitos aspectos que a de 2008-2009. E, novamente, juros, inflação e crescimento permanecem no chão.

Esse quadro está agitando o debate de política econômica. No extremo, surge a “teoria monetária moderna” (MMT, na sigla em inglês), que postula que o governo, por emitir moeda, pode gastar quanto quiser, sem provocar inflação ou problemas econômicos.

Os mais prestigiados economistas do mundo, inclusive que pendem à esquerda, como o prêmio Nobel Paul Krugman, não endossam a MMT.

Porém, mesmo sem chegar ao extremo da MMT, há muita discussão, sobre o quanto mais governos já muito endividados podem gastar, que vem ocorrendo até no chamado “mainstream”  – a corrente de pesquisa econômica à qual são filiados os economistas que hoje dominam a publicação nas principais revistas acadêmicas e também preenchem quase todos os cargos em órgãos de política econômica, como bancos centrais, ministérios da Fazenda, FMI e outras instituições multilaterais.

Nesse caso, não se trata de dizer que governos podem gastar sem limite. A ideia é de que, dado o risco de “japonização” das principais economias do mundo desenvolvido, os tesouros podem continuar gastando e os BCs provendo liquidez, que o risco de inflação é baixo.

Geralmente quem advoga essas ideias não está certo de que essas medidas farão as economias recuperarem a vitalidade. A ideia é mais de que “tentar não custa”.

O Japão é a referência por ter entrado nesse estado de apatia econômica desde a virada da década de 80 para a de 90, quando sua bolha imobiliária e acionária estourou.

De lá até hoje, o BC japonês já fez incontáveis programas de liquidez e o governo do país um sem número de estímulos fiscais. E não só o Japão não saiu da armadilha de baixos crescimento, juros e inflação, como a dívida pública chegou a mais de 230% do PIB sem causar comoção.

Esse último ponto é muito relevante na discussão. Normalmente se imaginaria que uma dívida desse tamanho ia provocar insegurança nos financiadores, levando à alta das taxas de juros. Mas o juro japonês de dez anos, atrelado à taxa de financiamento do governo, é de praticamente zero.

Para quem alimenta a ideia de que o governo pode gastar à vontade sem se preocupar, o Japão é um prato cheio. Mas é bom não ficar muito animado porque o Japão tem características muito peculiares, como o fato de que o setor privado é poupador e a dívida pública está toda na mão de residentes, incluindo uma parte considerável na mão do BC. Consolidando o setor privado e público, a dívida japonesa é negativa.

De qualquer forma, economistas “mainstream” que ainda veem espaço para expansionismo fiscal nos países ricos apontam a taxa de longo prazo baixíssima. Faria todo sentido tomar recursos a custo quase zero para fazer bons projetos de infraestrutura, por exemplo. E que, de quebra, podem estimular a economia.

Em um artigo recente em seu blog, o respeitado economista John Cochrane aborda esse debate.

Ele cita outros economistas de grande prestígio, como Lawrence Summers e Olivier Blanchard, que recentemente manifestaram posições menos preocupadas que a dele com mais impulsos fiscais nos países ricos. No caso de Blanchard, Cochrane ressalva que o economista francês apontou também os riscos.

Mas Cochrane se coloca entre os preocupados. Ele não descarta, obviamente bem para o futuro, e em data que não se tem como prever, que os Estados Unidos tenham problemas de financiamento na sua dívida pública, que na hipótese mais provável iriam se manifestar na forma de elevação da inflação e dos juros.

O economista aponta um fato óbvio, mas frequente relevado. Uma dívida enorme, mas com uma taxa de juros baixíssima, ou de praticamente zero, não representa nenhum problema fiscal em termos correntes. Se, porém, o juro, diante de uma súbita alta das expectativas inflacionárias sobe de quase zero para, digamos, 4%, de uma hora para a outra o governo terá um gasto financeiro enorme com sua dívida pública. O que vai pôr em marcha o círculo vicioso entre piora fiscal e alta dos juros.

Mas talvez a parte mais instigante do artigo de Cochrane é quando ele analisa a economia política da ideia de que o governo pode gastar ilimitadamente, sem custos.

Se os economistas convencerem os políticos dessa possibilidade de gasto público sem custo, será incoerente pedir depois que os políticos selecionem os melhores projetos de investimento e de gasto.

Na verdade, os políticos, com razão, vão concluir que é possível fazer qualquer gasto. Como escreve Cochrane, “se dívida e emissão de moeda não têm nenhum custo fiscal, por que ser cuidadoso sobre como você gasta dinheiro? Envie cheques para os eleitores. (…) Envie bilhões para salvar empresas moribundas (…) Para que resolver os problemas dos Correios? Mande mais R$ 25 bilhões. Ou US$ 100 bilhões”.

No Brasil, as mesmas ideias parecem ter os mesmos efeitos, como já se vê na discussão sobre eternizar o auxílio emergencial, que tem um custo de mais de 80% de todo o INSS.

Se nos Estados Unidos, economia líder do mundo e que imprime a moeda de reserva global e na qual gira o comércio internacional, a ideia de gasto público sem custo é questionável, o que dizer do Brasil, com nossa história de inflação e hiperinflação e crises fiscais e externas?

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/9/2020

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