Se o PIB parou, inflação não tem de ceder?

Solange Srour, da ARX, acha que parte do mercado está mantendo projeção de inflação de preços livres alta demais quando comparada às previsões cada vez piores de PIB.

Fernando Dantas

26 de agosto de 2014 | 09h42

Está ficando mais animado o debate sobre o efeito da grande desaceleração da atividade sobre a inflação dos preços livres. Entre os analistas, existem aqueles como Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos, que acham que parte do mercado pode estar exagerando no pessimismo (quanto à inflação especificamente).

“A gente vê que há quem tenha derrubado muito as projeções de crescimento, mas mexendo pouco ou quase nada nas de inflação – mas para isso seria preciso que o crescimento potencial fosse também caindo junto com a atividade”, ela diz.

Hoje, nota Solange, há muitas previsões do crescimento do PIB em 2014 em torno de 0,5%, ou até abaixo disso, próximo a zero. Para que a inflação de preços livres não cedesse nada, ou pouquíssimo, diante de um quadro tão deprimido seria necessário que o PIB potencial também tivesse mergulhado para esse território em torno de zero a 1%.

Ela frisa que não está sendo particularmente otimista num sentido mais amplo, porque o que vê acontecer com os preços deriva de uma piora muito forte no ritmo da economia.

Solange nota que economistas que ainda apostam em que a resistência da inflação dos preços está intacta muitas vezes enfatizam que teria havido uma perda de credibilidade do Banco Central (BC). Sem entrar no mérito desta questão, ela acha que de fato um BC com menos prestígio anti-inflacionário pioraria a relação entre atividade e inflação – isto é, a primeira teria de sofrer mais para que a segunda caísse.

“Mas isso não quer dizer que essa relação seja abolida”, ela acrescenta.

Outra questão que vem sendo levantada é sobre a resistência do mercado de trabalho à desaceleração econômica, o que poderia estar contribuindo para manter plenamente o fôlego da inflação de preços livres, especialmente nos serviços.

Solange, entretanto, acha que, mesmo com o desemprego da PME mantendo-se em níveis historicamente baixos, há sinais claros de que o enfraquecimento relativo do mercado de trabalho já se iniciou. No Caged, por exemplo, que traz as informações sobre o emprego formal, já são quatro meses consecutivos de dados muito ruins, com desaceleração dos salários de admissão e na demissão. Ela acha que mesmo uma leitura da tendência dos salários na PME indica uma dinâmica que vem se enfraquecendo em relação aos anos recentes.

Segundo a economista, os salários ainda crescem acima da produtividade, mas estão se desacelerando. Do ponto de vista de intensificar ou abrandar a pressão inflacionária, ela diz, o que importa é se os aumentos reais estão ganhando ou perdendo velocidade.

Solange tem uma previsão de inflação de 6,3% para 2014, e de 6,5% para 2015. Ela diz que o fato de que veja uma melhora nos preços livres, associada ao enfraquecimento da atividade, não quer dizer que a inflação cheia vá cair na mesma proporção. A razão é que o governo deve aproveitar eventuais folgas em relação ao teto do sistema de metas, de 6,5%, para intensificar o ajuste de preços administrados.

“Se eu estiver correta, haverá um forte incentivo para elevar a gasolina depois das eleições, de forma que não se rompa o teto em 2014 e se minimize o custo do ajuste em termos da inflação de 2015”, ela diz.

Apesar disso, a economista, que vê uma alta de 7,5% dos preços administrados no próximo ano, considera que há chances de ser até mais, porque a estimativa sobre a conta da crise no setor elétrico vem aumentando.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 21/8/14, quinta-feira.

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