Segue a queda no mercado de trabalho

Números de outubro da Pnad Contínua não trazem alívio. Mas Bruno Ottoni, do Ibre/FGV, temia que fosse ainda pior.

Fernando Dantas

02 de dezembro de 2016 | 20h38

O mercado de trabalho prosseguiu em processo de piora nos resultados relativos ao trimestre terminado em outubro, quando a taxa de desemprego da Pnad Contínua se manteve no nível de 11,8%. Em termos dessonalizados, segundo os cálculos do economista e consultor Alexandre Schwartsman, em relatório divulgado esta manhã, a taxa de desemprego subiu de 11,9% no trimestre terminado em setembro para 12,3% naquele findo em outubro.

Ele nota que o aumento do desemprego se acelerou nos últimos seis meses, para uma elevação dessazonalizada de 0,3 ponto porcentual (pp), correspondente a 300 mil pessoas, a cada mês – isto é, nos trimestres terminados nos sucessivos meses. Nos seis meses precedentes, esse ritmo mensal era de 0,2 pp.

Um fato que chamou a atenção dos analistas na divulgação da Pnad Contínua de outubro foi o desempenho da renda (rendimento real habitual), que, em R$ 2.025, subiu 0,9% em relação ao trimestre findo em julho. No seu relatório, Schwartsman observa que o crescimento do salário nominal se manteve em 7%, na comparação interanual (com o mesmo período, um ano antes) pelo terceiro mês consecutivo, uma aceleração ante o padrão de crescimento anterior, por volta de 5%.

Na entrevista de apresentação de resultados, Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, atribuiu o aumento do salário médio à perda de empregos com carteira assinada de menor rendimento, como apurou a repórter Daniela Amorim, da Agência Estado. Já Schwartsman vê naquele aumento sinal de uma possível resistência maior dos salários à piora do mercado de trabalho, o que poderia estar por trás da “aparente resiliência do núcleo da inflação de serviços, um fenômeno que parecer preocupar o Banco Central”.

Por outro lado, como comenta o economista-chefe no Brasil de um banco internacional, “para o consumo e a inflação, o que importa é a massa salarial como um todo, e ela continua caindo”.

Já o economista Bruno Ottoni Vaz, do Ibre/FGV, está tão preocupado com a deterioração do mercado de trabalho – e o fato de que o processo adia ainda mais o aguardado encontro do PIB brasileiro com seu “fundo do poço” – que considera um certo alívio que a população ocupada (PO) tenha crescido na margem em outubro. Ele se refere à comparação não dessazonalizada entre o trimestre terminado em outubro e aquele terminado em setembro, que registra leve alta de 0,05%, depois de quatro meses consecutivos de queda. Da mesma forma, a população economicamente ativa (PEA) cresceu 0,07% em outubro, na mesma base de comparação mencionada anteriormente, depois de cair vários meses.

Ottoni nota que, em termos sazonais, essas melhoras são esperadas, porque a economia agora ingressa na fase aquecida do final do ano. Na verdade, cálculos dessazonalizados de outra instituição mostram a PO caindo em outubro na margem, e Azeredo, do IBGE, revelou-se preocupado com a “desconfiguração da sazonalidade” no mercado de trabalho, pela perda de 604 mil postos de trabalho entre os trimestres encerrados em julho e em outubro. Ainda assim, Ottoni consola-se pelo fato de que os números de outubro, em relação a setembro, tenham mostrado pequenos avanços não dessazonalizados da PO e da PEA: “A deterioração tem sido tão forte que eu temia que nem isso ocorresse”, ele comenta. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast        

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/11/16, terça-feira.

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