Coluna

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Selic abaixo de 5%?

O caso para uma queda mais forte da Selic é analisado em relatório do Bradesco

Fernando Dantas

19 de setembro de 2019 | 10h39

No último relatório Focus, a projeção mediana de crescimento do PIB brasileiro este ano e no próximo é de, respectivamente, 0,87% e 2,07%. Já o IPCA, no Focus, fica abaixo da meta em 2019 e 2020, com respectivamente 3,54% (para uma meta de 4,25%) e 3,81% (4%). A Selic, por sua vez, fecha em 5% este ano e atinge 5,25% no final de 2020.

Mas será que a queda da Selic vai parar mesmo em 5% e ainda sofrerá um ligeiro calibre para cima em 2020?

É verdade que a Selic vem de um longo ciclo de cortes, que a trouxe de 14,25% em outubro de 2016 para o nível atual de 6%, e o Focus ainda projeta mais dois cortes de 0,5 ponto porcentual (pp).

Do ponto de vista do que interessa ao Banco Central, o sistema de metas de inflação, as projeções do Focus indicam que, em 2020, o País irá para o quarto ano consecutivo com inflação abaixo da meta.

Por outro lado, como as metas são cadentes, de 3,75% em 2021 e 3,5% em 2022, dá para argumentar que a trajetória de IPCA desenhada pelo Focus é consistente com a trajetória das metas determinada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

O problema é que um crescimento neste e no próximo ano de respectivamente 0,87% e 2,07%, com IPCA abaixo da meta em ambos os anos, levanta questões sobre em que ritmo será reduzido o enorme hiato do produto que vem produzindo um custo social tremendo.

No Focus, às vezes mais importante do que a mediana da projeção num momento específico é a sua tendência. Já foi amplamente divulgada a drástica frustração de crescimento em 2019, cuja projeção caiu de 2,5% no início do ano para o nível atual um pouco abaixo de 0,9%.

Mas este é um ano perdido em termos de crescimento e a preocupação se volta para 2020, para o qual a tendência é preocupante: até o fim de maio, o Focus apontava 2,5%, e agora já está em 2,07%.

No mercado, já crescem as apostas abaixo de 2% para 2020.

Em recente relatório, o Bradesco, cuja projeção de crescimento no ano que vem recuou recentemente de 2,2% para 1,9%, traça a argumentação básica sobre por que o piso de 5% para a queda da Selic pode não se sustentar.

O cenário básico do Bradesco é de uma queda da Selic até 4,75%, mas no relatório o banco não descarta que a taxa básica do Brasil caia ainda mais. A pré-condição, claro é que as expectativas de inflação permaneçam exemplarmente ancoradas, como estão no momento.

O texto busca diferenciar o cenário de 2018 daquele deste ano em termos de condições de queda da Selic. No ano passado, o real se depreciou com força, o petróleo subiu, o Fed ainda tinha a cabeça de subir os juros nos EUA, havia incerteza eleitoral e a reforma da Previdência ainda era mais um desejo do que algo com que se pudesse contar. A Selic permaneceu em 6,5% a maior parte do ano.

Já em 2019, aprendeu-se que a depreciação de 2018 teve um repasse inflacionário muito pequeno, o Fed deu um cavalo de pau no sentido do estímulo (seguido por diversos BCs), e as commodities estão estáveis – na “big picture”, os riscos inflacionários diminuíam muito de um ano para o outro.

Para o Bradesco, “a desaceleração global atua, nesse episódio (2019), como um choque negativo de demanda”. Como não dá para usar a ferramenta fiscal, há que se utilizar mais a monetária.

O relatório menciona três cenários para o crescimento global: estabilização em 3,2%, desaceleração para 2,8%; e desaceleração ainda maior.  No primeiro caso, a Selic para de cair no nível de 5,5% e, no terceiro, cai até 4,5%. Neste último cenário, o PIB brasileiro em 2020 poderia crescer somente de 1% a 1,5% sem reação da política monetária. Se ela acontecer, pode ficar próximo de 2%.

Por enquanto, o Bradesco aparentemente aposta no segundo cenário, mas não descarta o terceiro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/9/19, sexta-feira.

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