Selic para baixo

Corrente do mercado aposta em corte de 1 ponto porcentual hoje da Selic, para 3,25%.(coluna publicada antes da decisão, que acabou de ser anunciada, de corte de 0,5 pp. BC foi mais cauteloso)

Fernando Dantas

18 de março de 2020 | 17h55

Em termos econômicos, a expectativa no momento é que a crise do coronavírus tenha um impacto bem maior no mundo do que a grande crise financeira de 2008 e 2009. É nesse cenário que o Banco Central toma hoje mais uma decisão sobre a Selic, a taxa básica, que já está no nível recorde de baixa de 4,25%.

Há expectativa, de uma considerável corrente de mercado, de que o Copom reduza a Selic em 1 ponto porcentual (pp), para 3,25%.

A razão é simples. Apesar da disparada do dólar para mais de R$ 5, o impacto contracionista e desinflacionário da paralisação de boa parte da economia brasileira e global (o que pode se prolongar por meses) é tão gigantesco que, na verdade, as projeções de inflação estão caindo.

A projeção da corretora Ativa para o IPCA de 2020, a cargo do economista-chefe Carlos Thadeu de Freitas Filho – conhecido por seu trabalho minucioso com a inflação, e que tem antecipado tendências das previsões –, agora é de 2,3%  – abaixo, portanto, do intervalo de confiança de 1,5 pp em torno da meta de 4% para este ano, que vai até 2,5%.

“Frente a essa catástrofe econômica e seus efeitos recessivos e contracionistas, é preciso fazer algo mais contundente, e 100 pontos básicos [1 pp] me parece adequado neste contexto”, diz Carlos Kawall, diretor do ASA Bank.

O economista nota que, ao contrário do que se pensou inicialmente, o choque do coronavírus pode ser do tipo extremamente abrupto na descida, e lento na recuperação. A razão é que a paradeira das economias pode levar meses e afetar duramente o mercado de trabalho, de cuja recuperação a retomada irá depender.

Quem se acautela diante da ideia de cortar a Selic em 1 pp tende a apontar para a disparada recente do dólar, do risco e dos juros de médio e longo prazo.

Para Kawall, entretanto, essa dinâmica é ditada não pela redução do diferencial entre o juro interno e externo (que nem está acontecendo, porque o externo de maneira geral despencou com a crise), mas sim pela alta da aversão a risco global – em relação à qual os policymakers brasileiros nada podem fazer.

A ideia de que o Brasil, por ser uma economia emergente, tem menos espaço para usar de forma mais intensa a política monetária esbarra no fato de que muitos outros emergentes estão indo neste caminho. Com uma posição cambial líquida maior do que na crise de 2008 e 2009, o BC também tem mais espaço para dar suporte ao real, para Kawall. Já a posição fiscal e parafiscal na crise financeira global era mais favorável.

Tony Volpon, economista-chefe do UBS Brasil e ex-diretor do BC, previu e preconizou um corte de 1pp ainda na segunda-feira, extra reunião do Copom. Ele considera que o BC já perdeu tempo, mas recomenda um corte de “no mínimo 100 pontos base” ao fim da reunião de hoje.

“Menos de 1% é absurdo para mim”, opina.

O economista aponta nota que, diferentemente do que ocorreu na crise financeira e bancária de 2008/2009, o “desastre natural” do coronavírus pega o mundo e o Brasil já com problemas de baixo crescimento econômico.

Assim, para Volpon, o BC e autoridades econômicas devem fazer “whatever it takes” (“tudo o que for preciso”) para dar apoio à economia. A mesma linha de raciocínio foi defendida por Kawall e todos os que foram ouvidos para esta coluna.

“Se não agirmos, ao chegarmos do outro lado do pico da pandemia, daqui a alguns meses, poderemos ter uma economia arrasada pelo imenso número de empresas quebradas e pelo desemprego maciço”, aponta Volpon.

Nesse sentido, a queda da Selic torna-se um fator coadjuvante de uma enorme gama de instrumentos que o BC e o Ministério da Economia devem acionar (e alguns já estão sendo acionados): liberação de recursos para famílias, injeção de liquidez na economia, apoio financeiro às empresas, recursos maciços para o atendimento médico etc.

Outro importante economista do mercado, que também prevê corte da Selic de 1 pp hoje, resume a história ao dizer que o BC e o resto da equipe econômica têm que fazer tudo o que puderem para afrouxar as condições financeiras – isto é, atuar sobre todo o conjunto de fatores, no qual se inclui a taxa de juros, que tornam a vida financeira mais fácil , ou menos difícil, a esta altura do campeonato, para empresas e família.

Esse analista vai um pouco além. Como os outros ouvidos pela coluna, ele vê um front inflacionário muito tranquilo, o que ajuda a derrubar a Selic e tomar outras medidas estimulantes à economia sem sair do figurino do regime de metas de inflação.

Porém, ele observa, mesmo que a atual percepção esteja errada, e mais adiante o repasse cambial à inflação seja mais forte, ainda assim isto deveria ser considerado um “choque temporário” pelo sistema de metas, e deveria ser acomodado pelo BC.

Como frisam todos esses economistas, momentos excepcionais exigem atuação não convencional. A hora é de tentar salvar a economia, isto é, salvar empresas da falência e famílias do desemprego e de carências básicas, como alimentação, remédios etc.

“Eu consigo tranquilamente enxergar uma Selic de 2,25% daqui a alguns meses neste contexto global”, conclui o analista.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/3/20, quarta-feira.