Selic pode ficar cada vez mais expansionista

Fernando Dantas

20 de maio de 2014 | 23h32

A taxa neutra de juros reais no Brasil no momento se situa de 5% a 5,5%, e, a partir de fevereiro de 2012 a Selic ficou persistentemente abaixo deste parâmetro. Desde o segundo trimestre do ano passado, com o início do ciclo de alta da taxa básica, o hiato entre a taxa neutra, ou juro de equilíbrio, e a Selic foi sensivelmente reduzido, mas ainda é de 0,4 ponto porcentual. Considerando o cenário de muitos analistas de que a Selic será mantida em 11% daqui em diante, o hiato vai voltar a aumentar, já que a inflação acumulada em 12 meses e as expectativas inflacionárias devem subir, reduzindo a taxa básica em termos reais. Assim, a política monetária vai ficar mais expansionista ao longo deste ano, o que obrigará a novas rodadas de alta da Selic no futuro.

Esta análise está em relatório recém terminado da MCM Consultores Associados sobre a evolução recente da taxa neutra de juro no Brasil. Fernando Genta, economista-chefe da MCM, observa que, a partir de 2010, o tema é constantemente tratado em documentos do Banco Central (BC), além de ter sido objeto de quatro estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI). No último deles, recém-lançado, o Fundo estima que a taxa real de equilíbrio da economia brasileira esteja entre 3,5% e 7,2%.

Genta nota que há dificuldades em se estimar a taxa neutra no Brasil com filtros estatísticos, que buscam tendência nas taxas passadas. O primeiro é que, tomando-se um prazo mais longo, há uma clara tendência de queda do juro real no Brasil para patamares mais próximos da normalidade – diferentemente de um país como os Estados Unidos, em que há oscilações em torno de um nível já sedimentado por uma longa história de estabilidade econômica.

Segundo o economista, se, num país hipotético, o juro real ficar sistematicamente abaixo do neutro, a inflação subirá. Assim, o juro real irá caindo por causa da inflação em alta e um filtro puramente estatístico não terá como distinguir este fenômeno de uma queda do juro neutro.

Assim, a MCM optou por estimar o juro neutro brasileiro usando seis alternativas diferentes de cálculo do juro real de equilíbrio. “Há uma série de maneiras de calcular o juro de equilíbrio, e todas têm um ponto fraco – mas usando vários modelos, uns podem ser usados para avaliar as falhas dos outros e, quando todos dizem a mesma coisa, pelo menos temos uma pista”, explica Genta.

E, de fato, tomando-se o período de 2004 a 2014, os diversos modelos tendem a uma maior convergência a partir de 2009, e apontam todos para um intervalo de diferenciação bem pequeno na data mais recente – variações de 4,5% a 5,5%, mas com média de 5,2%, o que faz o economista estimar o juro neutro entre 5% e 5,5%.

“Resumidamente, há uma tendência de queda do juro de equilíbrio de 2003 para cá, mas que é estancada a partir de 2010”, diz Genta.

Na verdade, houve até um aumento do juro neutro desde o período entre agosto de 2012 e fevereiro de 2013, quando a média das taxas dos seis modelos ficou em 3,4%.

No relatório, a MCM observa que “alguns dos motivos para essa reversão foram abordados em discurso recente do diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton, tais como deterioração das políticas fiscal e parafiscal e represamento de preços administrados (prejudicial às expectativas) ”. O relatório da MCM cita ainda a alta dos juros longos dos EUA e o fato de que alguns dos seis métodos adotados são sensíveis à variação da taxa Selic observada, que subiu recentemente.

“Com base nas premissas do cenário da MCM, a Selic precisa ir para além de 11% para garantir convergência da inflação para o centro da meta (4,5%) até 2017, mas supondo que o juro real chegue pelo menos ao nível do juro real de equilíbrio”, conclui Genta.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News Broadcast na segunda-feira, 19/5/2014.

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