Sem alarme com o câmbio

Segundo respeitado gestor (que conversou em "off" com a coluna), nervosismo no mercado cambial desta vez não é prenúncio de uma crise externa.

Fernando Dantas

27 de novembro de 2019 | 19h46

Ao dizer que não se importava com a desvalorização do real, o ministro da Economia, Paulo Guedes, falou o que não devia na hora errada, e deu no que deu. E para nem mencionar o seu péssimo comentário sobre o AI 5.

Contudo, a ideia em si de que a atual temporada de desvalorização do real não é a antessala de uma nova crise é encampada por alguns analistas.

Evidentemente, do jeito que está acontecendo não é bom, e isso ninguém nega. O BC teve de intervir vendendo dólares, a curva de juros sentiu e subiu, a bolsa bambeou. E a nova fotografia do déficit em conta corrente, de 3% do PIB, deu um sabor de fundamentos à disparada do dólar, reacendendo velhas preocupações com crises externas.

Um respeitado gestor, entretanto, sem absolver Guedes por falar o que não devia, diz que não está alarmado pelo que acontece no câmbio.

Ele nota, inicialmente, que a cotação nominal recorde do dólar em reais ocorre com o risco Brasil próximo das mínimas históricas, com a Bolsa próxima da máxima, com prêmio de riscos historicamente muito baixos na parte longa da curva de juros e com inflação implícita na curva de juros bem comportada.

“São indicadores que não sinalizam crise, mas a sociedade ainda não aprendeu a conviver com alta do dólar sem associar à crise, porque no passado de fato uma coisa vinha com a outra”, ele diz.

O gestor considera que efetivamente o Brasil está ingressando num novo modelo de crescimento, com juro mais baixo e câmbio mais depreciado. Modelo esse, diga-se de passagem, que é melhor para a indústria.

Parte da alta recente do déficit em conta corrente pode ser atribuída a aspectos contábeis das revisões metodológicas que o BC fez no balanço de pagamentos. Nesses casos, de forma casada, aumentaram o déficit e seu financiamento.

Mas esse efeito não explica todo o aumento do déficit externo. As exportações brasileiras caíram expressivamente entre 2018 e 2019. Houve também mais saídas financeiras, puxadas em parte pelos juros internos baixos. Empresas brasileiras quitam dívida externa para trocá-la por endividamento doméstico e entra menos “hot-money” em busca de rentabilidade.

Esse quadro preocupa. Sem que as importações tenham crescido, o déficit em conta corrente em 12 meses foi a 3% do PIB. E se a economia de fato crescer mais rápido em 2020, o déficit irá a quanto?

O gestor ouvido nesta coluna não está indiferente a essas inquietações. Realmente, o mercado descobriu um pouco repentinamente que o dólar de equilíbrio no médio prazo está mais para R$ 4,10 a R$ 4,20 do que para R$ 3,80.

A visão era de que a perspectiva de aceleração da economia brasileira em 2020 iria atrair capitais e apreciar o câmbio. Agora, descobre-se que o equilíbrio, diante das contas externas e do cenário internacional, pode ser com real mais depreciado.

Para o gestor, o oba-oba da cessão onerosa, que levou o dólar a ficar até ligeiramente abaixo de R$ 4 no início de novembro, levou a muitas apostas num câmbio mais valorizado. Assim, parte do movimento atual é refluxo de quem se machucou no mercado com o fiasco do leilão da cessão onerosa (em relação às expectativas).

Adicionalmente, a economia real ajusta-se ao câmbio, mas este processo está longe de ser imediato. A perspectiva de um real mais depreciado por tempo duradouro estimula investimentos no setor de bens comercializáveis internacionalmente, como a indústria, para substituir importações e expandir exportações. Mas isso não acontece da noite para o dia.

No caso das exportações, há ainda o problema da desaceleração do comércio global e das crises em mercados importantes do Brasil, como a Argentina.

Tudo isso quer dizer, nessa visão, que há de fato uma transição potencialmente incômoda pela frente, mas não a perspectiva de uma grande crise.

O analista observa também que as grandes crises externas brasileiras do passado, antecedidas pela disparada do déficit em conta corrente, tinham como caraterística o elevado endividamento externo do setor público ou do setor privado ou dos dois. Quando o dólar disparava, as dívidas explodiam.

Mas esse não é mais o caso hoje em dia. O setor público é credor em dólares e o setor privado está justamente reduzindo a sua dívida externa.

O resumo da ópera, na sua análise, é que a atual turbulência não deve ser menosprezada, mas tampouco deve ser encarada como prenúncio de mais uma das grandes crises externas da história da economia brasileira.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/11/19, quarta-feira.