Sem alívio na inflação

IPCA de junho veio abaixo da mediana das projeções, mas, sob a lupa dos analistas, ainda não há nada a comemorar.

Fernando Dantas

11 de julho de 2022 | 12h22

O IPCA de junho, de 0,67%, veio abaixo da mediana das expectativas do Projeções Broadcast, de 0,71%, mas ninguém ficou contente. A visão é de que a inflação permanece qualitativamente ruim, e que o Banco Central (BC) continuará a lidar com uma situação muito problemática.

Em julho, espera-se deflação do IPCA, em função da aprovação pelo Congresso do teto de 17% para a alíquota de ICMS de combustíveis, energia elétrica, telecomunicações, transporte coletivo e gás natural. Em termos gerais, o imposto estadual vai cair, com efeito expressivo principalmente na gasolina e energia.

André Braz, economista do Ibre-FGV especializado em inflação, estima que a queda da energia pode ficar entre 9% e 10%, e a da gasolina, por volta de 5-6%. Ele nota a forte influência de gasolina e energia na inflação ao consumidor, impactando pouco mais de 10% do orçamento familiar.

Com a queda de preço dos dois itens e a deflação prevista para julho, a sua estimativa de IPCA fechado este ano cai de 9,2% para 8,1%.

Nada disso, porém, significa mudança positiva na dinâmica inflacionária.

Como aponta Carlos Thadeu, economista-sênior da gestora Asset1, todos os núcleos do IPCA de junho vieram acima do consenso do mercado, empurrados principalmente pela inflação dos serviços e dos bens industriais.

“Nós já tínhamos previsão mais elevada do que a do mercado para esses dois segmentos, mas eles vieram ainda mais altos do que nossa projeção”, diz o analista.

Tanto no caso dos serviços como dos bens industriais, Thadeu pensa que a pressão altista se deve às surpresas positivas este ano tanto em termos de atividade econômica como de mercado de trabalho.

Ele vê uma inflação de serviços mais inercial, puxada também pelo efeito da indexação anual do salário mínimo e seu aumento no início do ano.

Adicionalmente, Thadeu menciona que, segundo o Banco Central, o juro real só se tornou restritivo – isto é, ficou acima da taxa neutra – no último trimestre do ano passado. Dessa forma, ainda não deu tempo para que os efeitos sempre defasados da política monetária se fizessem sentir.

O economista projeta IPCA de 7,6% em 2022, e de 5,8% em 2023.

Braz, do Ibre, acrescenta que o índice de difusão do IPCA de junho, mesmo tendo recuado de 72% em maio para 67% em junho, ainda permanece em nível muito elevado, sinalizando forte disseminação inflacionária na economia.

Ele chama atenção para alguns destaques na inflação de junho, como o impacto da autorização em 26 de maio, pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), de reajustes de até 15,5% nos planos de saúde individuais. Esse ciclo de ajustes vai até abril de 2023, e, em junho de 2022, o impacto efetivo no item plano de saúde no IPCA foi de inflação de 2,99%.

Outros segmentos com alta de preços destacada em junho, nota Braz, foram automóveis novos, passagens aéreas e bares e restaurantes.

“Nos principais itens que puxam a inflação, temos preços monitorados, bens duráveis, serviços, de tudo um pouco”, comenta o analista.

Ele projeta inflação de 5% para 2023, prevê que o BC ainda elevará a Selic e a manterá em nível alto por mais tempo, e lembra que ainda permanecem vários fatores de incerteza no horizonte, como as eleições, a guerra, a Covid e o processo de alta de juros nos Estados Unidos.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/7/2022, sexta-feira.