Sem clima para o centro

Eleições recém-realizadas na América Latina mostram continente polarizado e sem espaço para plataformas centristas do tipo que parte da elite pensante no Brasil quer construir para 2022, como alternativa a Bolsonaro e Lula.

Fernando Dantas

13 de abril de 2021 | 10h58

 

Enquanto parte da elite bem pensante no Brasil dá tratos à bola buscando um candidato alternativo de centro à temida polarização entre Bolsonaro e Lula em 2022, a realidade nua e crua emite sinais de que a sedução dos extremismos está forte como nunca na América Latina.

No Peru, de forma surpreendente, Pedro Castillo, candidato de extrema-esquerda à presidência, já é dado como certo na disputa de segundo turno.

Castillo é a favor de nacionalização em setores como mineração, petróleo, gás e telecomunicações, pretende passar uma lei para controlar a mídia e ameaçou fechar o Congresso se este não aceitar uma Assembleia Constituinte – para substituir a Constituição de 1993, que se seguiu ao “autogolpe” de Alberto Fujimori em 1992.

Curiosamente, Castillo, professor de 51 anos que liderou uma greve nacional de três meses em 2017 para aumentar salários dos mestres e eliminar as avaliações de desempenho, tem uma pauta conservadora em costumes: contra o foco na igualdade de gênero na educação e o casamento de pessoas do mesmo sexo.

A contagem rápida do Instituto Ipsos projeta que Castillo (18,1% dos votos projetados no primeiro turno)  vai disputar o segundo turno com Keiko Fujimori (14,5%). Keiko é candidata de direita com grande rejeição, já esteve em detenção preventiva em processo de corrupção e é associada ao seu polêmico pai (que foi sentenciado a 25 anos em 2009 por corrupção e assassinatos políticos, cumpriu 12, foi perdoado, teve o perdão anulado, e voltou à cadeia em 2019).

Outros candidatos que se destacaram no primeiro turno fragmentado do Peru foram Hernando de Soto, apóstolo do liberalismo econômico (que também era visto esta manhã como possível contendor de Castillo no segundo turno) e Rafael Lopez Aliaga, tido como de extrema-direita.

Já no Equador, a vitória, definida nesse fim de semana, do ex-banqueiro Guillermo Lasso, político conservador, na eleição para presidente também compõe um cenário de país altamente polarizado.

Muitos analistas interpretam a eleição equatoriana como uma luta entre o “correísmo” (referente ao ex-presidente Rafael Correa, que governou o país de 2007 a 2017 e era alinhado ao chavismo) e o “anticorreísmo”. André Arauz, candidato de Correa, foi derrotado, mas as forças correístas têm ampla maioria no Congresso, o que sinaliza impasses e paralisia.

Cada país é um país, mas boa parte da América Latina compartilha ciclos político-econômicos com razoável grau de paralelismo nas últimas décadas.

O boom de commodities da primeira década deste século fez a fortuna e o sucesso de vários governantes na região – alguns mais e outros menos populistas. O fim do boom, no início da segunda década do século, e as fortes crises econômicas e políticas subsequentes foram uma espécie de bomba arrasa-quarteirão socioeconômica e político-partidária em vários daqueles países.

Presidentes foram depostos e presos em escândalos de corrupção, grandes manifestações populares e intensas turbulências sociais se disseminaram e arcabouços partidários foram chacoalhados, quando não ruíram. A eleição no Peru, incrivelmente fragmentada, está ligada a esse terremoto.

Como a história ensina, o tumulto econômico, político e social intensificou a polarização e os extremismos. A eleição de Bolsonaro é um claro exemplo dessa tendência.

Não há por enquanto, no Brasil, nenhum sinal claro de surgimento de uma alternativa moderada e centrista para 2022.

Mas não falta “wishful thinking” em setores da elite que sonham em tirar da cartola um candidato “socioliberal” para 2022, combinando uma agenda econômica pró-mercado com pauta progressista de costumes e valores. Exatamente o contrário da plataforma vitoriosa de Castillo no primeiro turno no Peru.

Como observou o analista político Ricardo Ribeiro, da consultoria MCM, em relatório recém-divulgado, “a terceira via [no Brasil] continua ‘despersonificada’”.

Ribeiro aponta que a última pesquisa XP-IPESPE dá, no primeiro turno de 2022, Lula com 29% e Bolsonaro com 28%. Ciro Gomes e Sergio Moro ficam muito atrás, com 9%, e Huck, Dória e Mandetta não vão além de 5%.

É verdade que tanto Lula como Bolsonaro têm o chamado “recall” eleitoral e que pesquisas um ano e meio antes da eleição dizem pouco. Ainda assim, não se fareja no ar nenhum indício de que as grandes correntes do eleitorado brasileiro – assim como do latino-americano – estejam em busca de reformas liberais na economia e abertura nos costumes.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/4/2021, segunda-feira.