Sem luz no fim do túnel na indústria

Alta de 2% em fevereiro, para analistas, não é sinal de retomada da indústria.

Fernando Dantas

06 de março de 2015 | 18h34

A alta de 2% na produção industrial de janeiro – na comparação dessazonalizada com dezembro – não parece ter animado o mercado em relação ao cenário negativo do setor para o ano. Para Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, no Rio, “os números de janeiro não mudam em nada o quadro”. Ela nota que a série dessazonalizada da PIM-PF é muito volátil. Assim, a alta de 2% segue-se à queda de 3,2% em dezembro.

Para indicar o comportamento irregular da série dessazonalizada, Solange chama a atenção para a revisão dos bens de capital nos dados de dezembro. Houve uma pequena mudança na comparação interanual (mês contra mesmo mês do ano anterior), de -11,9% para -12,1%. Já a série dessazonalizada dos bens capitais em dezembro foi revista, em direção oposta, de -23% para -11,5%.

O número de janeiro foi influenciado pela alta de 9,1% dos bens de capital (contra dezembro, na série dessazonalizada), comparada à queda de 11,5% em dezembro. Mas os dados da Fenabrave divulgados ontem mostram que a venda de caminhões (que são bens de capital) em fevereiro foi a metade do número do mesmo mês e caiu 26,73% ante dezembro.

Já as vendas de automóveis, picapes e furgões, segundo a Fenabrave, tiveram recuo de 27,3% em fevereiro na comparação interanual.

No dia seguinte à publicação desta coluna, a Anfavea divulgou que a produção de veículos em fevereiro teve recuo de 28,9% ante o mesmo mês de 2014.

Para o economista Rodrigo Miyamoto, analista de indústria do Itaú-Unibanco, indicadores coincidentes como índices de confiança e de capacidade instalada, além dos elevados estoques, apontam para a continuidade da fraqueza da indústria. Ele nota que em fevereiro foi registrada a quarta queda na margem (comparação dessazonalizada com o mês anterior) de bens de consumo, abrangendo os duráveis, semiduráveis e não-duráveis.

Solange, da ARX, observa que o PMI (indicador baseado em pesquisa mensal com as empresas) de fevereiro da indústria, calculado pela Markit/HSBC, caiu para 49,6, ante 50,7 em janeiro. O PMI abaixo de 50 indica piora. Ela acrescenta que a crise hídrica está paralisando ou reduzindo a atividade de algumas indústrias, como a de tintas, com impacto no Rio e em São Paulo em áreas com o Vale do Paraíba.

“Mesmo um câmbio a R$ 3 é insuficiente para uma crise tão forte na indústria”, diz a economista.

O economista Vinícius Botelho, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), assinala a piora generalizada das categorias de bens industriais em janeiro, em termos interanuais, na comparação com dezembro. Assim, respectivamente em dezembro e janeiro, os bens de capital registraram -12,1% e -16,4%; os bens de consumo, -3,2% e -7,4%; e os intermediários, -1,7% e -2,4%.

“Esse piora generalizada é consistente com o cenário de contração do PIB no primeiro trimestre”, estima Botelho.

Ele considera que o recuo dos insumos da construção civil em janeiro, de 8,8% na comparação interanual (ante 6,6% em dezembro), é mais um dado a pesar negativamente no PIB do primeiro trimestre.

Como única nota de consolo, Botelho observa que a expansão de 5,4% na margem da metalurgia em janeiro, depois de quedas em todos os trimestres de 2014, pode estar associada ao recuo do Preço de Liquidação de Diferenças (PLD) do mercado de energia de R$ 822,83 para R$ 388,48. Ele nota que trabalho do Ibre indica que o elevado PLD explica 10% a 20% da frustração de crescimento (diferença entre a projeção e o acontecido) do PIB em 2014, ao reduzir a produção dos setores energointensivos. “Ainda é cedo para concluir, mas o desempenho da metalurgia pode sugerir uma retomada dos energointensivos”, diz Botelho.

Coincidentemente, a projeção para a produção industrial em 2015 de todos os analistas ouvidos para esta coluna é de recuo de 3%. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 4/3/15, quarta-feira.

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