Sem voto, mas com ideias

Todos os nomes que se revezaram na esperança – a cada vez frustrada – de representar a terceira via centrista e liberal nas eleições deste ano tiveram em comum um conjunto muito semelhante de propostas. Mas essa agenda ainda precisa conquistar o eleitorado.

Fernando Dantas

24 de maio de 2022 | 18h47

A chamada “terceira via” nas atuais eleições não tem – até agora, pelo menos – voto, mas tem de sobra algo difícil de encontrar na política fisiológica brasileira: um programa claro de governo, com destaque para a parte econômica.

Antes de prosseguir, é bom esclarecer que a expressão “terceira via” utilizada nesta coluna deveria mais precisamente ser seguida de “centrista e liberal”. Dessa forma, no sentido aqui empregado, a terceira via exclui a candidatura de Ciro Gomes, talvez a que mais ardentemente se coloca contra o liberalismo econômico.

Feita essa ressalva, é interessante notar que, ao longo do surgimento e saída do cenário dos diversos nomes que pretenderam inutilmente galvanizar o espaço político de uma terceira via entre Lula e Bolsonaro, um fio condutor permaneceu constante e coerente: as ideias sobre como governar o Brasil.

Sucederam-se personagens como Luciano Huck, Sergio Moro, Eduardo Leite, João Doria e agora Simone Tebet, e todos eles sinalizaram, de diferentes formas, propostas de governo muito semelhantes.

As maneiras de comunicar variaram. Huck, por exemplo, teve como colaboradores para o ensaio de candidatura figuras como Arminio Fraga, ex-diretor do Banco Central, e Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo, que frequentemente, via artigos, entrevistas e eventos públicos em geral, divulgam suas ideias de forma clara e transparente.

Moro teve um esboço de programa elaborado com coordenação dos economistas Affonso Celso Pastore, Maria Cristina Pinotti e Renato Fragelli. Eduardo Leite, por meio de posicionamentos e do seu próprio programa de governo no Rio Grande do Sul, também deixou claro sua plataforma.

Doria, que teve Henrique Meirelles como principal assessor econômico na campanha,  também apresentou suas propostas, coordenadas pelas economistas Zeina Latiff, Ana Carla Abrão e Vanessa Rahal Canado. E Simone Tebet, finalmente, recrutou a economista Elena Landau para coordenar seu programa.

O que é notável é que todos esses documentos, artigos, declarações etc. sobre programas de governo dos candidatos da terceira via são bastante parecidos (o que obviamente não significa idênticos).

São documentos que, em essência, defendem o arcabouço de política macroeconômica implantado no Brasil principalmente entre 1998 e 2004, com o famoso tripé de responsabilidade fiscal, metas de inflação e câmbio flutuante.

Que consideram que a retomada do desenvolvimento econômico depende de reformas, como a tributária e a administrativa, de racionalização orçamentária (que pode significar mais investimento público), de um salto qualitativo na educação e de melhora do ambiente de negócios.

Todos eles convergem também na direção – em contraste com o pensamento do establishment nos anos 90 – de dar uma ênfase muito forte na redução das desigualdades, com políticas sociais pesadas, mas que não comprometam o equilíbrio fiscal.

Outro ponto comum entre elas é uma um foco bem maior – novamente comparado às décadas passadas – no meio ambiente.

São, enfim, programas “sociais-liberais”, na linha da “Ponte para o Futuro” do governo Temer.

É curioso que tantos personagens políticos e da vida pública em geral do Brasil convirjam de forma tão clara e coerente para um conjunto de ideias sobre como governar o Brasil que, na verdade, tem pouco apelo para a população, medido por votos.

Os três candidatos com mais intenção de votos hoje têm propostas muito diferentes. No caso de Lula, na área econômica, pelo menos, a ideia nitidamente é confundir em vez de clarificar, com uma constante cacofonia de declarações contraditórias pelo próprio candidato e por uma extensa trupe de palpiteiros com graus variados de legitimidade para falar em nome do PT.

Quanto a Bolsonaro, o caos ainda é maior, com a salada de ultraliberalismo de Guedes, negada na prática por escorregões populistas cada vez maiores e combinada de forma esdrúxula com a pauta reacionária e antiliberal em valores, costumes e na própria questão da democracia.

Ciro Gomes, por sua vez, aposta tudo num “projeto de Nação” que é o exato oposto da agenda da terceira via acima descrita. Gomes prega na prática a volta a tempos varguistas e geiselistas de forte participação do Estado na economia, junto com a mudança do atual arcabouço macroeconômico em prol de heterodoxias que nunca ficam muito claras.

A sua determinação de dispensar (o que legalmente já não pode ocorrer) a atual diretoria do Banco Central assim que assumir o poder é demonstração cabal disso.

A consistência e representatividade no meio político e econômico da agenda social-liberal, combinada com sua carência de votos, sugere que esse é um conjunto de ideias que penetrou fortemente nas elites tomadoras de decisão, mas não na massa da população.

A falta de popularidade dessa agenda, entretanto, não deveria ser vista como uma sina imutável.

A não ser para quem vê a sociedade como uma guerra feroz e aritmética entre uma elite espoliadora e um povo subjugado e passivo, o fato de que tantos gestores públicos, políticos, economistas, figuras do mundo das comunicações, empresários etc. tenham uma proposta comum, coerente e detalhada para o Brasil significa que essas ideias são de maneira geral positivas para o bem estar da sociedade e como tal podem ser vendidas.

Falta é claro, vender a ideia. Talvez uma candidatura unificada que claramente a defenda possa ser um passo inicial.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/5/2022, terça-feira.