Semelhanças e diferenças na economia dos candidatos

Fernando Dantas

14 de maio de 2014 | 18h53

Existe mais proximidade entre os economistas que assessoram os três principais candidatos presidenciais do que se pode julgar pelos fatos que se tornam públicos. Como explica um deles, “as manchetes de jornais interditam o debate e o que se discute entre quatro paredes é muito diferente do que se deixa divulgar”.

Assim, há cuidados especiais quando se fala de temas como o ajuste difícil da economia previsto para 2015, ou sobre a regra de reajuste do salário mínimo. O consenso é que os problemas fiscais e de inflação são sérios, e exigirão correção no próximo ano. As variações aqui ficam por conta do quão doloroso será o ajuste – os economistas do governo acham que os da oposição, especificamente os ligados à candidatura tucana, exageram. Mas ninguém acha que será indolor.

Para além do terreno comum, no entanto, as eleições deste ano trazem algumas diferenciações de plataforma econômica relevantes. Aécio Neves, por exemplo, está apostando numa orientação bastante ortodoxa e liberal ao apontar o ex-presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga, como futuro ministro da Fazenda.

É bom lembrar que o PSDB tem matizes desenvolvimentistas, representadas principalmente por José Serra, que teve alguma influência em determinados momentos do governo de Fernando Henrique Cardoso, e que foi o candidato presidencial tucano em duas das três derrotas recentes.

Mesmo que Serra venha a ser apontado vice-presidente, é bem possível que os resquícios heterodoxos num eventual governo Aécio sejam totalmente eliminados, como talvez não tenham sido nem na era FHC. E a razão é simples: a percepção no campo do candidato tucano é que o fracasso da “nova matriz econômica” da presidente Dilma tirou qualquer prestígio ou possibilidade de defesa do intervencionismo desenvolvimentista tal como praticado nos últimos anos. A julgar pelos economistas a quem Aécio tem dado ouvido, ele comprou essa tese, mesmo que a “interdição ao debate” mencionada acima possa fazer com que isso não fique 100% claro no discurso de campanha.

A posição de Eduardo Campos e Marina Silva é mais complexa. A candidatura comum dos dois nasceu muito mais de uma crítica política à adesão do PT ao fisiologismo tradicional dos governos brasileiros do que de qualquer diagnóstico sobre problemas econômicos. Campos e Marina, porém, perceberam rapidamente o potencial da crítica aos erros econômicos de Dilma, e buscam uma versão “light” da ortodoxia tucana, apostando em conselheiros que reúnam liberalismo e um “algo mais” para além da aridez econômica: André Lara Resende, às voltas com temas ambientais e de sustentabilidade, e Eduardo Giannetti da Fonseca, com seu lado filósofo.

Mas, um pouco como nas últimas candidaturas tucanas, Campos e Marina não se desvencilharam totalmente da tensão interna entre ortodoxia e desenvolvimentismo. O conselheiro Paulo Sandroni, economista da FGV-SP, que participou do governo Erundina em São Paulo como presidente da CMTC, é percebido como heterodoxo pelo campo liberal.

Dilma, finalmente, é curiosamente – já que está no governo – a candidata que mais levanta dúvidas em relação à plataforma econômica. Existe dentro do PT um pensamento econômico articulado e influente, aparentemente sancionado por Lula, que vê a necessidade de um ajuste em 2015 e um recuo discreto da experimentação com a nova matriz. Por outro lado, a própria presidente tem visão heterodoxa e o que não falta, dentro do PT, são correntes em favor de uma ruptura mais radical com qualquer postura que remeta ao pensamento tucano. É essa incógnita, aliás, que está por trás da má vontade do mercado em relação à candidatura
Dilma.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broacast na terça-feira, 13/5/14.

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