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“Semirecessão” global

Bráulio Borges, da LCA Consultores, vê economia global em "semirrecessão" e economia brasileira perto da retomada.

Fernando Dantas

03 Julho 2016 | 19h31

A recente vitória do Brexit no referendo do Reino Unido reacendeu os temores de mais uma recessão global, mas as principais bolsas globais subiram desde a votação na quinta-feira, 23/6, inclusive a britânica FTSE 100. No primeiro semestre, tanto o índice Dow Jones quanto o SP-500 fecharam em pequena alta, enquanto a Nasdaq registrou leve queda. Aparentemente, os mercados estão sendo guiados pela percepção, que se transmite imediatamente para as condições globais de liquidez, de que o Fed, BC norte-americano, vai se contrapor a eventos negativos para a economia mundial – como se supõe ser o Brexit – adiando e suavizando ainda mais a normalização do juro básico dos Estados Unidos.

De qualquer forma, a reação da política monetária norte-americana não significa que fatores como a demanda ainda deprimida em boa parte do mundo rico e a superoferta de produtos industriais no Leste asiático vão sair de cena. Pelo contrário, é justamente a combinação de baixa inflação e atividade econômica em banho-maria que mantém a elevada liquidez, estimulada pelos principais bancos centrais do mundo.

Em relatório divulgado ontem, Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA, classificou o atual quadro internacional como o de uma “semirrecessão global” que, para o analista, guarda muitas semelhanças com o ocorrido em 2001 e 2002.

Borges notou que houve uma mudança nos critérios do Fundo Monetário Internacional (FMI) para definir uma recessão global. Antes, o critério era um crescimento do PIB mundial inferior a 2,5% ou 3% do PIB, a depender do economista-chefe da instituição. Agora, segundo o analista da LCA, “essa definição foi aperfeiçoada, de modo que uma recessão global passou a ser associada a uma variação negativa do PIB per capita, acompanhada de decréscimos em outros indicadores agregados mundiais (como produção industrial, comércio, fluxos de capital, consumo de petróleo e população ocupada)”.

O novo critério estabelece condições mais exigentes para definir uma recessão global, que, desde 1961, ocorreram apenas em 1975, 1982, 1991 e 2009. Pela sistemática anterior, as recessões globais aconteceram em 1974-75, 1980-83, 1991-93, 1998, 2001 e 2009.

Com revisões para baixo, pós-Brexit, nas projeções de crescimento dos Estados Unidos, zona do euro e Reino Unido, Borges nota que o crescimento global em 2016 está “flertando” com o território abaixo de 3%, que já poderia ser considerado recessivo na prévia classificação do Fundo, mas não na nova – daí sua definição de “semirrecessão”. Ele observa adicionalmente que, no biênio 2015-2016, haverá contração dos investimentos globais e quase estagnação do comércio mundial.

Curiosamente, este ambiente semirrecessivo do mundo talvez seja propício para uma retomada da economia brasileira, porque – de um lado – mantém a liquidez global que ameniza o prêmio de risco em função da deterioração fiscal doméstica; e, por outro, por não ser uma recessão aguda, não cria riscos pelo outro lado do espectro, que poderiam levar à “fuga para a qualidade” dos fluxos financeiros e à desvalorização adicional das commodities.

Borges não fez esse argumento específico no seu relatório, mas notou que o indicador de probabilidade de recessão da LCA, que utiliza vários indicadores antecedentes e coincidentes, sinaliza que o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), da FGV, deve vir a estabelecer que o fim do atual ciclo recessivo brasileiro, iniciado no segundo semestre de 2014, está se encerrando no segundo ou terceiro trimestre de 2016. Uma economia global tépida, nem muito fria, nem muito quente, pode ajudar o Brasil a se levantar do fundo do poço. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 1/7/16, sexta-feira