Será que a desvalorização resolve?

Muitos economistas consideram a desvalorização necessária, apesar de efeitos adversos no curto prazo (como sobre a inflação), por causa do grande e crescente déficit externo. Mas há dúvidas se a desvalorização vai resover este problema.

Fernando Dantas

17 Fevereiro 2015 | 18h55

Uma corrente importante de analistas considera que a desvalorização do real é um movimento necessário e que tem tudo para se aprofundar. A lógica é relativamente simples. Com crescimento zero, a economia brasileira fez um déficit em conta corrente de 4,2% do PIB no ano passado, um nível que o histórico do País indica ser arriscado. Não há forma de reequilibrar o lado externo sem desvalorizar o câmbio em termos reais. E, para isso, é preciso de muita desvalorização nominal.

O sócio de uma gestora de recursos, muito respeitado no mercado, nota que “nossa inflação é muito mais alta do que a da maioria dos nossos parceiros comerciais”. Assim, uma parcela de 6% da desvalorização nominal é apenas suficiente para deixar o câmbio real no mesmo lugar. Além disso, o dólar americano vem subindo em relação à maior parte das moedas. Desta forma, a desvalorização do real ante o dólar tem de ser ainda maior para que haja um efeito real significativo na cesta de moedas que representa o comércio exterior brasileiro.

Esse analista acha que o Banco Central tentou postergar demais o processo de ajuste cambial com o programa de swaps cambiais que já dura um ano e meio. Por outro lado, para a correção que finalmente parece estar ocorrendo, os swaps serviram para irrigar a economia real com hedge e evitar as fortes perdas e solavancos ocorridos em 2008 e 2009 após a deflagração da crise econômica global.

“A curto prazo essa desvalorização cria ansiedade, mas, uma vez feita a transição, é a melhor coisa que pode acontecer com o País”, diz a fonte. Ele nota que a expectativa de que a economia volte a crescer em 2016, após um provável resultado negativo este ano, está em parte embasada numa puxada pelo setor externo, com um câmbio real mais desvalorizado. “Se quisermos que a economia cresça em 2016, este câmbio tem de ir para mais de R$ 3”, avalia.

O economista José Márcio Camargo, da gestora Opus e da PUC-Rio, tem dúvidas sobre as consequências positivas da desvalorização. Ele acha que de fato a tendência é de depreciação nominal. A Opus projeta câmbio de R$ 3,05 no final do ano, mas, segundo Camargo, “pode ser mais diante da deterioração mais rápida do que prevíamos do cenário econômico e político”.

Ele nota que há motivos externos e internos para a desvalorização. Lá fora, mais proximidade com o momento de alta da taxa básica americana, queda do preço das commodities, tensões na Europa com a situação da Grécia, entre outros fatos. No Brasil, crescentes dúvidas sobre a capacidade da nova equipe de entregar o ajuste prometido, o “fogo amigo” do PT, a ambiguidade da presidente Dilma Rousseff sobre a linha de ação escolhida. E, claro, as expectativas cada vez mais deterioradas de atividade. A Opus prevê queda do PIB de 1% sem racionamento e de 2% a 2,5% com racionamento.

O problema de Camargo com a tese de que a desvalorização é positiva reside no fato de que ele é cético quanto às chances de que a grande perda de valor nominal se transforme numa perda significativa de valor real. Ele lembra que o que importa para promover ganhos de competitividade via câmbio é que o preço dos produtos comercializáveis internacionalmente suba acima do preço dos não-comercializáveis.

O problema, porém, diz o economista, é que “no Brasil os não comercializáveis continuam a variar entre 8,5% e 9% ao ano, como vêm fazendo desde 2012”.

Diante disso, as duas únicas formas de promover o ajuste de preços relativos é ou que os bens comercializáveis subam por um tempo razoável bem acima daquele nível, o que significa uma inflação anual acima de 10%; ou que os bens não comercializáveis desacelerem para 5%. Para esta segunda hipótese, no entanto, ele estima que o desemprego teria de ir para algo entre 8% a 9%. Em termos de política monetária, seria preciso que o BC de fato levasse a inflação para o centro da meta de 4,5% em 2016, o que, para o economista, exige que a Selic suba até cerca de 16%.

Ele nota que deixar uma inflação de dois dígitos fazer o ajuste de preços relativos também acabará afetando a economia real e o mercado de trabalho: com a instabilidade o investimento cai ainda mais, os salários reais perdem com a inflação, a demanda fica deprimida e o desemprego acaba subindo de qualquer forma. “Mas é um processo mais desorganizado”, conclui Camargo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 11/2/15, quarta-feira.