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Será que Bolsonaro acalmou mesmo?

Uma série de razões, sendo a principal a situação cada vez pior de Flávio Bolsonaro perante a Justiça, pode explicar comportamento menos agressivo do presidente nas últimas semanas. Mas Bolsonaro já mostrou que a qualquer momento pode voltar aos ataques contra tudo e contra todos.

Fernando Dantas

04 de julho de 2020 | 21h58

A prisão Fabrício Queiroz e os últimos desdobramentos do escândalo da “rachadinha” do senador Flávio Bolsonaro parecem efetivamente ter dado um “chega pra lá” na vertente radical e ideológica dentro do governo de Jair Bolsonaro.

Na verdade, o agravamento do caso de Flávio vem na esteira de outros eventos que, de certa forma, parecem estar repaginando a estratégia política do presidente.

É difícil entender por que Bolsonaro partiu para o ataque, no início do ano, mas é mais fácil entender por que, agora, parece ter caído na defesa.

O grau de radicalismo, agressividade e insensatez na largada do segundo ano de governo foi assustador. O presidente e sua claque ideológica hostilizaram com ferocidade os outros Poderes, os demais níveis da Federação, a elite cultural do País e todos os outros grupos que os incomodam.

Manifestações golpistas foram abertamente apoiadas pelo presidente e os militares no governo soltaram inadmissíveis recados, cifrados ou não, contra outros Poderes.

Sergio Moro, o grande símbolo anticorrupção do governo, foi demitido por não querer participar do esquema de proteção à família presidencial nesta sua última etapa, mais ostensiva e escandalosa.

Simultaneamente, o presidente entrou em luta aberta contra o consenso científico mundial em termos da pandemia, demitindo dois ministros da Saúde e causando dezenas de milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas.

Toda essa fúria cega – e com objetivos difíceis de discernir, salvo proteger o filho Flávio – provocou o previsível efeito ricochete.

As instituições e o establishment reagiram. O prestígio das Forças Armadas começou a despencar entre os bem pensantes, o que foi claramente comunicado à casta castrense em artigos e editoriais na grande imprensa.

Há alguns primeiros sinais de que os militares colocaram as barbas de molho. Serem associadas ao submundo criminoso e homicida das milícias do Rio parece não estar caindo muito bem para as Forças Armadas. Talvez seja um custo de imagem alto demais a pagar por mais verbas, vantagens corporativas e cargos, as armas de Bolsonaro para manter a fidelidade dos militares ao seu desgoverno.

A reação mais forte, porém, veio do Supremo Tribunal Federal, que redescobriu o valor do consenso entre os seus membros e partiu com tudo, incluindo prisões, contra o “gabinete do ódio” no inquérito das fake News.

Bolsonaro parece estar sentindo todos os golpes, e dá mostras de ter ficado efetivamente muito preocupado com a hipótese de ser destituído antes do final do seu mandato, por impeachment (principalmente) ou cassação da chapa.

Como nota o cientista político Marcus Melo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), “o governo precisa do Legislativo para se defender do impeachment”, o que levou ao acordo entre Bolsonaro e o Centrão.

Weintraub, o mais estridente dos ministros da cota “ideológica”, teve que sair do Ministério da Educação depois dos seus insultos ao STF na famigerada reunião ministerial.

Agora se noticia que Ricardo Salles e Ernesto Araújo, respectivamente do Meio Ambiente e do Itamaraty, também notórios radicais e provocadores, estão sob pressão dentro do governo.

Simultaneamente, eventos e tendências mais gerais estão empurrando o governo para potenciais novos caminhos.

Como detalhou hoje a jornalista Adriana Fernandes no Estadão, o governo já tem um desenho preliminar do Renda Brasil, um novo programa que vai substituir o Bolsa-Família, fazendo transferências maiores a um grupo de beneficiários mais amplo.

Pode ser a “marca social” de Bolsonaro, e vem na esteira do auxílio emergencial para lidar com a pandemia da Covid-19, que, em nível global, deu uma torção nos discursos políticos, na direção de mais intervenção do Estado.

Paralelamente, há sinais de que o tombo econômico do coronavírus, no Brasil e no mundo, embora imenso, ainda assim será menor do que o antevisto no momento de maior pessimismo. Assim, salvo uma nova onda pandêmica surpreendentemente catastrófica no segundo semestre, o cenário econômico dos dois últimos anos do mandato presidencial pode não ser tão negativo.

Carlos Pereira, cientista política da Ebape/FGV, no Rio, observa que o eleitorado que apoia o presidente pode estar passando por uma mudança. Antes, era uma coalizão dos radicais (o que o pesquisador chama de “identitários”) com pragmáticos a favor do liberalismo econômico e do combate à corrupção.

Esses últimos, porém, podem ser perdidos, seja pela saída de Moro, seja pela incompatibilidade do liberalismo de Guedes com as demandas fisiológicas do Centrão e o novo clima pró-seguridade social trazido pela pandemia.

Nesse caso, Bolsonaro pode substituí-los pelo que Pereira chama de “pragmáticos pobres”, o público do Renda Brasil.

Com um presidente de temperamento volátil como Bolsonaro, é muito difícil arriscar previsões. Não seria surpresa que, cinco minutos após a publicação desta coluna, o presidente embarcasse em mais um frenesi de radicalização e agressividade.

Porém, feita essa ressalva, parece haver alguma chance de que, escaldado pelas consequências nefastas para si e sua família do surto extremista da primeira parte deste ano, Bolsonaro esteja de fato tentando remodelar seu governo, numa direção menos beligerante.

Daria certo?

Tanto Melo como Pereira são céticos. Há muitas contradições nesse hipotético novo modelo, com demandas incompatíveis entre si do núcleo ideológico do eleitorado, do Centrão fisiológico e da equipe econômica liberal.

Adicionalmente, as elites do Judiciário e do Legislativo aprenderam que o presidente é uma fera perigosa, que já deixou feridas feias em ambas, e, portanto, não vão desmontar, à primeira bandeira branca, o arsenal de inquéritos, processos e articulações políticas que penderão por muito tempo sobre a cabeça de Bolsonaro como uma “espada de Dâmocles”, como ilustra Melo.

Dessa forma, se de fato optar pela moderação, Bolsonaro iniciará essa segunda fase do seu governo já bastante fragilizado, e terá que contar com muita sorte.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e folgará na próxima semana, voltando a escrever neste espaço no dia 14/7, terça-feira. (fernando.dantas@estadao)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/7/2020, sexta-feira.

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