Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Serviços: copo meio cheio ou meio vazio?

Pesquisa de serviços de agosto confirma que o setor está se recuperando, mas ainda bem na rabeira em relação à indústria e ao varejo.

Fernando Dantas

14 de outubro de 2020 | 20h31

A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de agosto, divulgada hoje, é um caso típico de “copo meio cheio ou meio vazio”. Pelo lado “meio cheio”, os resultados – alta de 2,9% ante julho, na série dessazonalizada, e queda de 10% ante agosto de 2019 – vieram um pouco melhores do que a mediana do Projeções Broadcast.

Pelo lado “meio vazio”, os serviços como um todo ainda estão 9,8% abaixo do nível de fevereiro, pré-pandemia, na série dessazonalizada. Esse resultado contrasta com o desempenho da indústria e do varejo, que já recuperaram (ou quase) os níveis pré-Covid.

Esse padrão já era bem conhecido e esperado. A pandemia atingiu com particular virulência o setor de serviços, especialmente os ligados a viagens, lazer e turismo, ao obrigar ou induzir as pessoas a ficarem dentro de casa por um longo período.

Agora, à medida que a economia vai reabrindo, os serviços se recuperam,  mas em ritmo bem mais lento que a indústria e o varejo, que acabaram sendo estimulados pelos programas de sustentação da renda, com destaque para o auxílio emergencial.

A PMS de agosto não mudou as projeções do Haitong Bank para o PIB deste e do próximo ano, de respectivamente -5,2% e 3,4%.

Mas Flavio Serrano, economista-chefe da instituição no Brasil, nota que os serviços estão efetivamente se recuperando, à medida que há um retorno à normalidade e a mobilidade aumenta.

Ele destaca em especial os serviços às famílias em agosto, que cresceram 33,3% em relação a julho, na série dessazonalizada, e os transportes, com alta de 3,9%, com destaque para o transporte aéreo, com 14,6%.

Luana Miranda, economista do Ibre/FGV, ressalva que, apesar do avanço dos serviços prestados às famílias, esse segmento, bem relevante para o PIB, ainda se encontra 41,9% abaixo do nível de fevereiro, na série dessazonalizada.

“Os serviços de modo geral estão reagindo, porém lentamente, e, ao contrário da indústria e do varejo, nenhuma das principais categorias da PMS retornou ao nível de fevereiro ainda”, diz a economista.

Na verdade, o que está puxando ligeiramente o otimismo dos analistas não é o setor de serviços, mas sim a indústria e o varejo, que já são os destaques da retomada.

Segundo um gestor de recursos no Rio, a PMS de agosto confirmou a recuperação lenta do setor de serviços. Porém, “se combinarmos os serviços com o resto da economia, a recuperação está sendo bem mais rápida do que o imaginado”.

Luana tem visão parecida: “Acho que a indústria e o varejo vão melhorar e os serviços devem continuar alinhados com o que temos hoje”.

De acordo com a economista, isso dá um viés ligeiramente positivo (possibilidade de pequena melhora) às projeções do Ibre, que, no momento, são de queda do PIB de 5,2% em 2020; e, no caso do terceiro trimestre, de queda do PIB de 5,3% em relação ao mesmo trimestre de 2019, e avanço de 6,9% ante o segundo trimestre deste ano, na série dessazonalizada.

Ela alerta que possível melhora nas projeções do Ibre não serão “nada dramáticas”.

De qualquer forma, a economia está se movendo, e o baque pelos efeitos econômicos da pandemia está se desenhando substancialmente menor do que o previsto nos apavorantes momentos iniciais do coronavírus no Brasil.

Resta, é claro, como sempre no Brasil, o problema fiscal. Serrano nota que o ano de 2021, para o qual prevê crescimento do PIB de 3,4%, será beneficiado por um bom carregamento estatístico (efeito técnico que pode elevar ou reduzir o crescimento do PIB).

A preocupação do economista é que o imbróglio fiscal mine no ano que vem o crescimento “na margem”, isto é, acima do carregamento estatístico.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/10/2020, quarta-feira.

Tendências: