Serviços ganham tração

Resultado da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) em setembro veio em linha com cenário de retomada gradual

Fernando Dantas

15 de novembro de 2019 | 20h34

A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de setembro veio em linha com a visão crescente de que a recuperação da economia brasileira está passando por um upgrade neste segundo semestre.

Não, não é para soltar rojões. A retomada segue em ritmo muito moderado, com o elevado desemprego em trajetória bastante lenta de queda (inclusive, nas últimas divulgações, quase estacionando na comparação ano contra ano).

O que a pesquisa de serviços de setembro ajuda a corroborar é que a suave aceleração da economia – que deve crescer em torno de 1% este ano e algo entre 2% e 2,5% no próximo – ainda está nos trilhos, e que a possibilidade de mais um desapontamento, mesmo em relação a este prognóstico nada ambicioso, está diminuindo.

O resultado da pesquisa, que mede o volume de serviços prestados em setembro, foi de alta de 1,2% ante agosto na série dessazonalizada, vindo acima do teto das Projeções Broadcast, de 1,1%. Na comparação com setembro de 2018, a alta foi de 1,4%, acima da mediana das Projeções Broadcast, de 0,4%.

Apesar do resultado positivo, Luana Miranda, economista do Ibre/FGV, alerta que “os serviços ainda estão meio de lado, e num patamar ainda baixo”.

Assim, o resultado acumulado em 12 meses da PMS ainda está em apenas 0,7% de crescimento. Na mesma base de comparação, os serviços profissionais, administrativos e complementares (23,1% da PMS) ainda estão negativos em 0,5%.

A boa notícia, segundo Miranda, é que esses serviços foram melhores em setembro (2,9% de alta ante o mesmo mês de 2018, e 1,8% ante agosto, dessazonalizado), e devem ficar positivos em breve na leitura do acumulado em 12 meses.

Esses são tipicamente serviços de empresas para empresas, e sofreram de forma particularmente dura na recessão e lentíssima recuperação subsequente.

Já os serviços prestados às famílias, mesmo com um pequeno recuo em setembro ante o mesmo mês do ano anterior (-0,3%), vão bem, obrigado, e já acumulam um crescimento em 12 meses de 3,6%. O problema, observa Miranda, é que essa classe de serviços tem peso de apenas 8,2% na PMS.

Os serviços de informação e comunicação, por sua vez, avançaram 2,2% em setembro, ante o mesmo mês de 2018, e já acumulam alta de 2,9% nos 12 meses (até setembro)

A economista nota ainda que os serviços de transportes são os que se mantêm mais negativos na leitura do acumulado de 12 meses (-3,1%), tendo registrado recuo de 1,7% em setembro, comparado ao mesmo mês de 2018. Para ela, ainda não está claro por que essa classe de serviços mantém um desempenho tão ruim.

Miranda espera que a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC, que sai amanhã) de setembro também venha com um resultado favorável: a projeção do Ibre/FGV é de que o varejo ampliado, que inclui veículos e material de construção, cresça 4,8%, na comparação com setembro de 2018 – fechando um crescimento trimestral interanual de 4,5%.

A análise da economista é parecida com a de Flávio Serrano, economista-chefe do Haitong Bank.

“Já temos uma recuperação econômica um pouco melhor, e setembro deve mostrar isto”, ele diz. Mas Serrano também ressalva que não se trata de uma retomada retumbante, e que, apesar do crescimento do emprego, a queda do desemprego deve seguir lenta (pela entrada de mais pessoas no mercado de trabalho). Serrano espera números bons na PMC e no IBC-Br de setembro.

O economista estima crescimento do PIB de 1% este ano e de 2,2% em 2020. A retomada deve ser puxada pelo consumo, o que está em linha com os números melhores da PMS nos serviços prestados às famílias. Ele, como Miranda, aponta a liberação do FGTS como um combustível a mais para o último trimestre, assim com a retomada do crédito.

Pelo lado do risco negativo, Serrano menciona a situação internacional, com a desaceleração da Europa, os problemas argentinos (que afetam a indústria brasileira) e a agitação política em outros países sul-americanos, que pode vir a abalar estas economias.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/11/19, terça-feira.