Serviços indicam 2022 melhor, mas e 2023?

Indicadores recentes do comércio e dos serviços estão fazendo analistas revisarem para cima projeções de crescimento no 1º trimestre, e possivelmente no segundo e no ano. Mas é mais provável que a desaceleração tenha sido adiada do que cancelada.

Fernando Dantas

13 de maio de 2022 | 11h47

O crescimento acima do esperado dos serviços em março, de 1,7% ante fevereiro na série dessazonalizada – e acima da mediana das previsões do Projeções Broadcast, de +0,8% –, compõe o quadro de notícias surpreendentemente positivas sobre a atividade das últimas semanas. O resultado da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de março foi divulgado hoje pelo IBGE.

Em reação, o Bradesco, como explica a economista Myriã Bast, do departamento de análise econômica do banco, aumentou sua projeção de crescimento no primeiro trimestre de 1,3% para 1,7%, na comparação dessazonalizada com o último tri de 2022.

A analista nota que os serviços prestados às famílias cresceram 2,4%em março (sempre na mesma base de comparação, tri anterior com dessazonalização), e são um setor de peso relevante no PIB. Quando se repondera a PMS de março para as contas nacionais trimestrais (do PIB), o desempenho fica ainda mais forte.

Adicionalmente, os serviços são um setor da atividade mais inercial (oscilam menos). Assim, o bom resultado do primeiro trimestre aponta na direção de um desempenho robusto também no 2º tri.

Bast acrescenta que dados internos do Bradesco indicam que março foi justamente o início de uma dinâmica mais favorável nos serviços, que melhoraram ainda mais em abril.

Particularmente em relação aos serviços prestados às famílias, foi detectada aceleração na passagem do primeiro para o segundo trimestre em segmentos como transporte aéreo, bares e restaurantes, hotelaria, turismo etc.

Vários fatores, para a economista, podem explicar esse desempenho. Não só há as transferências, como o Auxílio Brasil, mas também no mercado de trabalho houve surpresas positivas.

Ela observa que, na última divulgação da Pnad Contínua, relativa ao trimestre terminado em março, houve surpresa positiva em relação ao número de empregos criados e ao fato de que ocorreu pequena elevação da massa real de salários (na comparação com o mesmo trimestre de 2021), mesmo diante do efeito corrosivo da inflação de dois dígitos.

Bast aponta ainda que, apesar da alta dos juros, o crédito continua bem por enquanto. Esse fato transparece na abertura da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) do IBGE, divulgada na terça-feira (10/5), do varejo associado ao crédito. Finalmente, a poupança acumulada pelas famílias na pandemia começou a ser gasta de forma mais forte no primeiro trimestre.

Uma informação interessante trazida pela economista é que, em conversa com  algumas empresas, foi dito que o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras impulsionou a demanda por serviços, o que pode estar ligado à maior sensação de segurança (seja verdadeira ou não) e conforto.

Bast aponta que o Bradesco está reavaliando tanto a projeção de crescimento de 0,3% do PIB no primeiro trimestre quanto a de 1,5% no ano. Em maio, o impacto da liberação do FGTS deve impulsionar a atividade.

Mas esse bom momento de 2022 em algum momento deve ser interrompido, provavelmente no segundo semestre, e a projeção de crescimento do Bradesco para 2023 é de apenas 0,5%.

Segundo um gestor de recursos no Rio, as surpresas positivas de atividade deste miolo do primeiro semestre são mais um erro de timing do mercado do que efetivamente do alvo. Esse erro de timing pode ter sido ocasionado por efeito maior do que o esperado das transferências ou pelo choque positivo para a economia brasileira da alta das commodities.

O analista observa que o bom resultado da PMC esta semana foi ainda mais surpreendente que o da PMS, especialmente pelo aumento do consumo dos serviços não ter acontecido em detrimento do consumo de bens, como se pensava. Também é surpreendente que a inflação eleve o preço dos produtos e o consumo permaneça firme.

Entretanto, prossegue o gestor, a atual reação da economia não é sustentável por muito tempo e uma forte desaceleração ainda deve vir e ser sentida na virada de ano e em 2023.

Para início de conversa, há o efeito da política monetária se apertando aqui e no mundo, e a desaceleração global. Ele nota que a renda real ainda vai sofrer e a alta dos juros vai piorar a situação financeira das famílias até o ponto em que isso afete de forma mais significativa o crédito. Também o efeito de usar a poupança acumulada na pandemia para consumir tem prazo de validade.

“No final das contas, acho que teremos o mesmo padrão típico das séries históricas brasileiras, com uma aceleração no ano eleitoral, podendo chegar a 2%, mas ao custo de contratar um péssimo 2023”, ele conclui.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/5/2022, quinta-feira.