Serviços não puxam mais a economia

A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de agosto mostra perda de fôlego do maior setor da economia, que esteve no centro dos avanços econômicos e sociais dos últimos anos.

Fernando Dantas

24 de outubro de 2014 | 13h40

Os serviços, o setor responsável pela maior parte da economia e que esteve no coração do avanço econômico e das melhoras sociais no Brasil nos últimos anos, dá sinais de perda de vitalidade. A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de agosto, divulgada na quarta-feira (22/10/14), confirma que os serviços vêm perdendo fôlego. A receita nominal do setor cresceu 4,5% em relação a agosto de 2013, ante um IPCA dos serviços no mesmo período de 8,4% – embora não seja exatamente comparável, pois há discrepância entre o que está coberto no grupo de serviços do IPCA e da PMS, trata-se de uma indicação de houve queda real na produção de serviços no período.

A desaceleração fica mais evidente quando se tomam os resultados mês a mês, que vem registrando queda quase contínua a partir das altas de 9,2% e 10,1%, respectivamente, em janeiro e fevereiro deste ano.

“Os serviços deixaram de ser, desde meados deste ano, um setor que sustenta o crescimento do PIB e compensa o mau desempenho da indústria”, comenta Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos.

A economista nota que ainda havia dúvida em relação à possibilidade de que a freada nos serviços estivesse de alguma forma relacionada à perda de atividade econômica durante a Copa, por causa de feriados, transtornos de rotina e horas de trabalho perdidas em função do evento. Os números de agosto, entretanto, que mostram uma piora na comparação com o mesmo mês de 2013, indicam que a Copa não foi a causa. Em junho, a receita nominal dos serviços subiu 5,7%, e, em julho, 4,6% (sempre em relação ao mesmo mês do ano anterior).

A receita nominal do setor de transportes cresceu apenas 3,2%, desacelerando-se em relação à expansão de 4,6% em julho. Solange observa que o transporte cresceu 7,5% em maio, e tinha altas mês contra mês acima de 10% em 2013 e início de 2014. Ela acrescenta que é um segmento muito relacionado com a indústria. Para Alexandre Ázara, economista-chefe da gestora Modal, o item transportes dentro da PMS guarda uma correlação particularmente forte com o desempenho dos serviços no PIB.

Vinicius Botelho, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio, diz que mesmo segmentos com melhor desempenho na PMS de agosto, como os serviços prestados às famílias, que tiveram alta de 9%, deixam a desejar quando se pensa na correção pela inflação no período.

A alimentação fora do domicílio, por exemplo, teve inflação de 10,2% medida pelo IPCA entre agosto de 2013 e o mesmo mês de 2014, o que se compara aos 9,7% de aumento da receita nominal do item alojamento e alimentação da PMS de agosto. Não é exatamente a mesma coisa, já que a PMS inclui alojamento no item, mas é o mais próximo que se pode chegar para uma comparação.

A PMS de agosto acrescenta mais uma nota negativa às projeções do PIB do terceiro trimestre. Conforme nota da jornalista Maria Regina Silva, da Agência Estado, o economista-chefe da Icatu Vanguarda, Rodrigo Mello, disse que os números da pesquisa de serviço reforçam a visão de que a economia pode ter encolhido novamente no terceiro trimestre.

Para Botelho, do Ibre, a pesquisa indica enfraquecimento da atividade no terceiro trimestre. “Pode até ter levado para campo levemente negativo”, ele acrescenta.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 22/10/14, quartaf-feira.

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