Serviços retomam, mas de forma heterogênea

Setor já alcançou nível pré-pandemia, mas com uma cara bem diferente. Serviços às famílias ainda estão 30% abaixo, serviços de informação e comunicação e serviços profissionais mais qualificados estão bem acima.

Fernando Dantas

14 de julho de 2021 | 09h40

A Pesquisa Mensal de Serviços de maio, com alta de 1,2% ante abril na série dessazonalizada, veio perto (ligeiramente acima) da mediana do Projeções Broadcast, de 1%. O resultado de abril foi revisto de +0,7% para +1,3%.

A alta de 23% dos serviços em maio, ante o mesmo mês de 2020, também veio próxima, um pouco acima, da mediana do Projeções Broadcast de 20,6%

O fato de a divulgação da PMS não ter causado surpresas, no entanto, não significa que não haja resultados positivos quando se analisa a pesquisa com cuidado.

Lucas Rocca, economista da consultoria LCA, chama a atenção para o fato de que o faturamento do setor de serviços já está no nível pré-pandemia de fevereiro de 2020 – ou, precisamente, 0,2% acima.

Mas a recuperação é extremamente heterogênea. No primeiro momento da pandemia, em 2020, a queda nos serviços prestados às famílias e nos transportes, itens mais sensíveis às restrições de mobilidade, foi bem mais forte do que nos demais setores de serviços. Em seguida, a retomada também foi desigual.

Hoje, como nota Rocca, dos cinco grande segmentos dos serviços, três já superaram o nível pré-pandemia, de fevereiro de 2020: ‘serviços de informação e comunicação’, ‘transportes, serviços auxiliares ao transporte e correios’, e ‘outros serviços’ (uma miscelânea que inclui serviços financeiros e imobiliários).

Dentro da categoria ‘transportes, serviços auxiliares ao transporte e correios’, há também grande heterogeneidade causada pela pandemia. As subcategorias ‘terrestre’, ‘aquaviário’ e ‘armazenagem, correio e serviços auxiliares’ já voltaram ao nível pré-pandemia, mas os transportes aéreos ainda acumulam perda de 29%.

O quarto grande setor, ‘serviços profissionais, administrativos e complementares’, ainda está aquém do pré-pandemia, mas por pouco, 2,7% abaixo.

E, finalmente, vem em quinto lugar a grande categoria de serviços que mais sofreu e ainda sofre com a pandemia, os ‘serviços prestados às famílias’, também 29% abaixo de fevereiro de 2020, como o transporte aéreo.

A boa notícia, como observa Luana Miranda, economista da Gap Asset, no Rio, é que o crescimento de 17,9% dos serviços prestados às famílias em maio (em relação a abril, dessazonalizado), após um avanço de 9,4% em abril, no mesmo tipo de comparação, praticamente zerou as perdas de março, e colocou o segmento em nível similar ao de janeiro.

Março, é bom recordar, foi o mês em que a terceira onda da Covid-19 se apresentou em todo o seu horror, levando muitos Estados e municípios a adotarem medidas de restrição à circulação, que depois foram sendo abrandadas (ainda que o contágio e as mortes continuassem avançando).

Ela acrescenta que os transportes também reagiram em maio, com a categoria como um todo avançando 3,7% ante abril (dessazonalizado) e 32,6% ante maio de 2020.

Miranda nota que a recuperação de outros serviços em março e abril (ainda que a categoria ainda esteja quase 30% abaixo do pré-pandemia) é um sinal positivo para o PIB do segundo trimestre.

A economista acrescenta, finalmente, que a pandemia, por outro lado, foi bem favorável a serviços como de tecnologia da informação – basta pensar no home office – e os “técnico-profissionais” (mais qualificados), que estão substancialmente acima do nível Covid-19.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/7/2021, terça-feira.