Shiller e as narrativas da depressão

Prêmio Nobel se preocupa cada vez mais com impactos das histórias que se contam, sejam verdadeiras ou falsas, no preço dos ativos e na economia em geral.

Fernando Dantas

29 de janeiro de 2016 | 21h56

“Estou preocupado em que possa haver uma grande correção nos mercados e uma recessão global, mas é muito difícil botar números nisso”, disse Robert Shiller numa conversa com a Agência Estado no Fórum de Davos, no sábado passado (23/1).

O célebre prêmio Nobel de Economia, autor de Exuberância Irracional, é alguém que se pode dizer que previu tanto a bolha acionária que estourou em 2000 quanto a imobiliária que estourou em 2008. Mas seu comportamento nada tem da autoconfiança artificial dos profetas. Na verdade, Shiller está cada vez mais encasquetado com o fato de que narrativas e histórias influenciam poderosamente as decisões de compra e venda de ativos nos mercados globais. E há uma imprecisão intrínseca nas narrativas que não se consegue quantificar, o que deixa os economistas, com seu viés quantitativo e objetivo, em situação difícil na hora de fazer projeções.

“Eu estou mais preocupado com a recessão do que o típico economista, mas é algo intuitivo, e este é o problema”, ele acrescentou.

Em recente artigo no New York Times, intitulado “Como as histórias estão movendo os mercados de ações”, Shiller busca mostrar a força das narrativas nos preços e também delineia algumas histórias básicas, recentes ou atuais, que ele julga particularmente significativas.

A primeira é sobre os problemas da China, às vezes colocados num pano de fundo de uma competição entre sistemas econômicos, em que se mexe com o senso de patriotismo e competitividade dos Estados Unidos. O resultado, para Shiller, é uma grosseira superestimação da importância da China para os mercados americanos.

Outra narrativa, que o prêmio Nobel considera particularmente absurda, é sobre o pior começo de ano (em 2016) dos mercados em muitas décadas.

“O Ano Novo é uma convenção social arbitrária, a Terra gira tranquilamente em torno do sol e não tem nenhum ponto que se possa identificar como o começo do ano – há o Ano Novo chinês, o Ano Novo judaico, islâmico, e muitos outros”, me disse o prêmio Nobel em Davos, para quem o fato de a queda recente ocorrer no início do ano no calendário ocidental hegemônico é uma coincidência sem nenhum significado econômico.

Há ainda a narrativa ligada às grandes oscilações do preço do petróleo e à vibrante constituição do setor de petróleo e gás de xisto nos Estados Unidos, na qual Shiller vê um componente emocional e patriótico que pode ter ajudado o mercado acionário norte-americano a subir em anos recentes. Agora, com a queda do barril e os problemas no setor, ele teme uma história inversa, depressiva para os mercados.

A última e mais importante narrativa, finalmente, é sobre a triplicação de valor do mercado acionário entre 2009 e 2014. Shiller considera que a simples ideia de que aquilo que sobe demais terá que cair contribui em parte para o sentimento negativo – que ele chama de “folclore” – que pode estar entre os componentes do atual “bear market”.

Ele observa também que um mercado em alta reforça o sentimento de autoestima e de controle sobre os acontecimentos dos investidores. Já num mercado em baixa, as pessoas muitas vezes vendem não por uma racionalidade puramente econômica – “tenho que evitar perder o dinheiro que vou gastar nas minhas férias” – mas sim porque estão tentando salvar seu sentimento de superioridade. Algo mais na linha “quem sou eu, uma pessoa esperta que sabe agir rapidamente em momentos difíceis, ou um bobo que não reage”.

O problema de todas essas narrativas e reações emocionais, continua Shiller, é que, independentemente de estarem corretas ou não, elas influenciam os preços de ativos e podem ter a força para derrubar mercados e precipitar recessões. E os economistas não têm nenhum instrumental para quantificar a influência das histórias no comportamento dos agentes do mercado.

No momento, ele teme que uma nova queda forte dos mercados possa dar mais gás à ideia da “estagnação secular” desencavada por Lawrence Summers “sem nenhuma sólida evidência por trás”, segundo Shiller. Ele também vê o potencial de escândalos inesperados envolvendo pessoas importantes no mercado de afetar o sentimento dos investidores.

Em relação aos indicadores que produz, Shiller nota que aquele que mede a confiança dos investidores nos níveis de valorização do mercado indica que as ações estão caras demais. Por outro lado, o seu chamado “cape ratio” (índice preço/lucro, PL, ajustado ciclicamente), com um horizonte de dez anos, está bem abaixo do pico, em 2000 – ele lembra que em 1998, depois de forte queda na esteira da crise russa, o cape ratio prosseguiu em forte subida por mais dois anos. Como saber se o mesmo não pode ocorrer agora, pergunta, relativizando sua própria preocupação intuitiva com os mercados e uma possível recessão.

Num jantar na sexta-feira em Davos que reuniu quatro prêmios Nobel de Economia (além dele mesmo, Joseph Stiglitz, Michael Spence e Edmund Phelps), Shiller conversou com Persio Arida, chairman do BTG Pactual, e Octavio de Barros, economista-chefe do Bradesco, sobre as narrativas que movem os mercados brasileiros. Ele está impressionado em como as histórias do Brasil azedaram de Lula para Dilma, em relação a quem identifica que houve uma perda de confiança, “um senso de traição”, ligado também aos escândalos de corrupção.

“As pessoas amam as histórias, especialmente histórias de interesse humano, que estão ligadas às nossas motivações e movem os mercados”, resumiu o prêmio Nobel. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 29/1/16, sexta-feira.

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