Sinais de desemprego

Fernando Dantas

02 de março de 2015 | 23h39

O desemprego medido pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE deu sinais em janeiro de que começa finalmente a ser afetado pelo mau desempenho da economia. “Os números são um primeiro sinal que aponta na direção que deve dar o tom do mercado de trabalho no ano”, diz Rafael Bacciotti, economista da consultoria Tendências, que segue esta área. Ele prevê que o desemprego médio da PME salte de 4,8% em 2014 para 6,3% em 2015 – um salto de 1,5 ponto porcentual.

O desemprego em janeiro ficou em 5,3%, meio ponto porcentual acima da taxa do mesmo mês em 2014, mas ainda 0,1 ponto porcentual acima da taxa do mesmo mês de 2013. O economista e consultor Alexandre Schwartsman notou em relatório divulgado em 26/2, quinta-feira, que é o terceiro mês consecutivo em que o desemprego da PME é maior do que o do mesmo mês do ano anterior, quebrando o padrão que prevaleceu por boa parte dos últimos cinco anos, de taxas cada vez mais baixas nas comparações interanuais.

Schwartsman estimou que, em termos dessazonalizados, o desemprego subiu 0,3 ponto porcentual entre dezembro e janeiro, de 4,9% para 5,2% – a maior alta desde março de 2009, em pleno impacto da crise global.

Pelas contas da gestora JGP, no Rio, a taxa de desemprego dessazonalizada da PME já subiu quase um ponto porcentual, saindo da mínima histórica de 4,5% em abril de 2014 até o nível de 5,4% calculado para janeiro deste ano. Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da JGP, nota que a taxa dessazonalizada de janeiro é a maior desde outubro de 2013, quando ficou em 5,5%. As taxas dessazonalizadas calculadas por diferentes instituições podem ter pequenas diferenças.

A história prevista para o desemprego em 2015, a julgar pelas análises de vários economistas, pode ser basicamente a da remoção do fator até certo ponto surpreendente que impediu que o indicador se elevasse em 2014: a queda da taxa de participação desde pelo menos o início de 2013. Este indicador mede qual a proporção das pessoas em idade de trabalhar que estão empregadas ou buscam ocupação. Mesmo com sinais claros de deterioração da criação de emprego no ano passado, a saída de pessoas da força de trabalho impediu o crescimento do desemprego.

Agora, porém, como diz Bacciotti, da Tendências, a prevista desaceleração da renda familiar pode impelir de volta ao mercado de trabalho pessoas – especialmente jovens – que puderam se ausentar em tempos de vacas gordas. Com uma baixa criação de emprego, fruto da economia muito enfraquecida, muito dos ingressantes terão dificuldades em achar ocupação, o que deve elevar a taxa de desemprego. Bacciotti nota ainda que um certo endurecimento nas condições de acesso ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) pode afetar parte do contingente jovem que vem se ausentando da força de trabalho para estudar (outra parcela não trabalha nem estuda, os chamados “nem-nem”).

Assim, o salto de 1,5 ponto porcentual na taxa de desemprego da PME previsto para 2016 pela Tendências pode ser decomposto em 0,8 ponto porcentual de queda na população ocupada e 0,7 de aumento da força de trabalho, ou população economicamente ativa (PEA).

Em janeiro, já houve leve movimento nessa direção. Como indica o relatório de Schwartsman, na comparação com janeiro de 2014, a população ocupada encolheu 0,5%, o que não foi contrabalançado por queda semelhante ou maior da PEA – esta, na verdade, teve ligeiro crescimento de 0,1%.

Segundo as estimativas de Schwartsman, se o PIB cair 0,5% em 2015 (uma hipótese que nada tem de pessimista) e a taxa de participação se mantiver em torno do nível de 56% de 2014, o desemprego médio da PME pode subir para a faixa de 6,5% a 7%. Se a taxa de participação voltar ao seu padrão histórico de 57%, o desemprego pode atingir de 8% a 8,5% este ano, de acordo com os cálculos do economista.

Em termos de renda nominal, Schwartsman nota que o rendimento médio cresceu 8,8% nos três meses terminados em janeiro, desacelerando-se ante os 9,3% no último trimestre de 2014. Ainda assim, ele escreveu, é um nível que supera em muito as estimativas de elevação da produtividade do trabalho, de 0,5% a 1% ao ano, o que mantêm as pressões inflacionárias.

Bacciotti observa que o crescimento real da renda em janeiro, de 1,7%, foi menor que a média de 2,7% em 2014 – o que considera consistente com sua projeção de queda de 0,5% em 2015, dando suporte à previsão de aumento da força de trabalho pela necessidade de que mais pessoas trabalhem nos domicílios para reforçar a renda familiar. O mau desempenho da renda real, para o economista, virá tanto da fraqueza da economia como da corrosão da elevada inflação prevista para este ano.

Rocha, do JGP, nota que a renda real ainda cresceu a 2,5% nos 12 meses terminados em janeiro, o que “´é saudável mas dificilmente se mantém, devendo zerar na média até o fim do ano”. Para o economista, é possível que a renda real inclusive caia em 2016.

Um grande complicador das análises do mercado de trabalho é que há muitas diferenças entre os números da PME, que abrange as seis principais regiões metropolitanas, e a Pnad Contínua, que engloba todo o País – as divergências incluem a trajetória recente tanto da população ocupada quanto da PEA. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 2/3/2015, quinta-feira. 

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