Sinais de vida na inflação de serviços

Ainda está longe de merecer alarme, mas alta de preço dos serviços, componente mais sensível à demanda e à política monetária, já não estão tão supercomportada como no ano passado.

Fernando Dantas

11 Fevereiro 2019 | 16h46

O IPCA de janeiro, de 0,32%, veio abaixo da mediana das estimativas dos analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, de 0,37%, mas a leitura por dentro dos itens e subitens não foi 100% tranquila, embora esteja muito longe de assustadora. Pode-se dizer que “a cara” do IPCA de janeiro é consistente com a postura ligeiramente “hawkish” do comunicado pós-reunião do Copom da semana passada.

Matéria de Caio Rinaldi e Thaís Barcelos mostra como núcleos e medidas de serviços no IPCA acumulado em 12 meses até janeiro, calculados pela CM Capital Markets, tiveram altas relevantes.

Por outro lado, os bens industriais tiveram deflação de 0,13% em janeiro e acumulam em 12 meses uma inflação de apenas 0,98%. Já a inflação dos serviços acumulada nos 12 meses até janeiro é de 3,83%, ou 3,56% quando se excluem as passagens aéreas.

São níveis ainda baixos e perfeitamente compatíveis com a meta de inflação, mas a questão é que existe um processo de aceleração nos últimos meses. Quando se compara janeiro de 2018 com o mesmo mês de 2019, os serviços excluindo passagens aéreas subiram de 0,18% para 0,57%; e a inflação acumulada em três meses até janeiro dos dois anos aumentou de, respectivamente, 0,90% para 1,60%.

O economista Carlos Thadeu Filho, especialista em inflação do Ibre/FGV, considera que alguma recuperação econômica no último trimestre de 2018 (especialmente em serviços e comércio) pode explicar uma parte menor da aceleração dos preços de serviços. Mas a maior parcela, para ele, vem do IGP elevado em 2018 (por causa da desvalorização – o IGPM acumulado em 12 meses até janeiro está em 6,75%), que agora é repassado em contratos de aluguel e preços da educação.

Dessa forma, Thadeu Filho prevê que essa moderada pressão nos serviços deve se dissipar daqui para a frente, já que o IGP já está desacelerando (com a volta e estabilização do câmbio), e porque a baixa geração de emprego da atual retomada deve continuar a tirar gás da atividade. Sua projeção de IPCA para este ano é de 3,79%.

Já um analista de conhecida gestora de recursos no Rio de Janeiro opina que a pressão nos serviços parece ir algo além dos aluguéis e outros itens mais atrelados à indexação pelo IGP.

A alimentação fora de casa, por exemplo, teve alta de 0,79% em janeiro deste ano, o que se compara a 0,06% no mesmo mês de 2018. Quando se compara o item nos acumulados em 12 meses até janeiro de 2018 e até o mesmo mês em 2019, chega-se a, respectivamente, 1,01% e 1,62%.

Tomando-se um exemplo mais pontual, o subitem “cabeleireiro” do IPCA – que é um serviço competitivo e não indexado ao IGP – teve variação em 12 meses até janeiro de 2018 de 3,46%, e, na mesma base de comparação até janeiro de 2019, de 4,13%.

O gestor também não se sobressalta com esses números, porque os fundamentos ainda estão na contramão de uma alta mais consistente dos serviços, puxada pela demanda. O desemprego ainda está muito alto e a inércia atua favoravelmente, já que a inflação passada tem níveis muito comportados. Ele acha que pode ter algum havido repasse na virada do ano da inflação dos preços administrados (que foi alta em 2018), como energia elétrica, para negócios no setor de serviços.

“O mais provável é que seja algo temporário mesmo”, diz.

De toda forma, a função do BC é manter as barbas no molho. A evolução da inflação de serviços nos próximos meses com certeza é algo que ficará no foco da autoridade monetária e do mercado.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/2/19, sexta-feira.