Sinais de vida no mercado de trabalho

Pnad Contínua mostra crescimento de 2,6% na população ocupada entre o segundo trimestre de 2018 e o de 2019. É um sinal forte, mas atenuado pela qualidade ainda baixa de grande parte dos postos que estão sendo criados (informalidade) e pelo recuo na renda média do trabalho.

Fernando Dantas

01 de agosto de 2019 | 17h13

Os resultados da Pnad Contínua do segundo trimestre, divulgados em 31/7, quarta-feira, confirmam os sinais de vida que vêm sendo detectados no mercado de trabalho. E reforçam a sensação de alguns analistas de uma dessintonia entre os dados do mercado de trabalho e os de atividade.

O número que mais impressionou na divulgação da PnadC foi o crescimento da população ocupada entre os segundos trimestres de 2018 e 2019: de 2,6%, com acréscimo líquido de 2,4 milhões de empregos.

Isso é bem mais, tanto em termos absolutos quanto relativos, do que a queda do desemprego no mesmo período: de 157 mil pessoas, ou de 1,2%. A população desempregada caiu de 12,92 milhões para 12,77 milhões, e a taxa de desemprego recuou 0,4 ponto porcentual (pp), de 12,4% para 12,0% – sempre comparando o segundo trimestre de 2019 com o de 2018.

A razão para a variação mais favorável do emprego do que do desemprego é que a força de trabalho também vem crescendo de forma mais robusta, tendo saído de 103,9 milhões no segundo trimestre de 2018 para 106,1 milhões no mesmo período de 2019, alta de 2,2% ou de 2,2 milhões de pessoas.

Em resumo, mais gente buscando trabalho, mais gente conseguindo emprego e uma redução bem mais modesta do desemprego.

O que pode ser parcela da explicação de por que a renda real média de todos os trabalhos, na verdade, recuou 0,2%, para R$ 2.290, entre o segundo trimestre de 2018 e o de 2019. A ocupação cresce, mas também o número de pessoas buscando ocupação, o que atenua pressões salariais.

O outro pedaço da explicação está na qualidade dos trabalhos que estão surgindo, que ainda deixa muito a desejar, e é a razão principal porque muitos analistas ainda evitam qualquer entusiasmo sobre a retomada do mercado de trabalho.

Compare-se, por exemplo, os avanços do número de empregados de diferentes tipos de ocupação entre o segundo trimestre de 2018 e o mesmo período de 2019: empregados do setor privado com carteira, mais 450 mil vagas, ou alta de 1,4%; empregados do setor privado sem carteira, respectivamente 565 mil, ou 5,2%; empregados por conta própria sem CNPJ, 841 mil ou 4,5%. Os conta própria com CNPJ tiveram uma alta expressiva de 7,1%, mas como o contingente é menor, isto significou uma adição de apenas 315 mil postos de trabalho.

Há uma visão de que, num processo de retomada do mercado de trabalho, é natural que os postos informais saiam na frente dos formais. A razão é que a contratação formal envolve custos maiores ao longo do tempo e as empresas tendem a esperar até ter certeza sobre a sustentabilidade da recuperação.

O problema atual no Brasil, entretanto, é que a liderança da informalidade está durando tempo demais, possivelmente denotando uma tibieza mais intrínseca da retomada econômica – algo a se verificar, ou não, mais adiante.

De qualquer forma, há analistas, como Samuel Pessoa, economista-chefe da gestora Reliance e pesquisador associado do FGV-Ibre, que estão mais animados com os resultados recentes do mercado de trabalho medidos pela PnadC.

“Há dessintonia entre os dados de emprego e de atividade – a economia gera empregos e gera renda, ou seja, tem demanda para o consumo e o PIB deve estar crescendo um pouco mais do que se imagina”, ele dz.

Pessoa lembra ainda do primeiro mandato de Dilma Rousseff – quando também houve contraste entre o desempenho muito forte do mercado de trabalho e bem menos exuberante da atividade. Ele nota que as revisões do PIB, feitas com dois anos de defasagem, acabaram indicando um crescimento significativamente superior – e menos dissonante em relação aos dados de emprego daquele período.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 31/7/19, quarta-feira.

 

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