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Sinal amarelo para Bolsonaro

Pesquisa do site Jota aponta forte queda na popularidade do presidente após saída de Moro, mas resultados da Datafolha não confirmam este recuo.

Fernando Dantas

30 de abril de 2020 | 11h21

Pesquisa divulgada pelo site jurídico Jota, realizada em conjunto com a Quaest Consultoria e Pesquisa, deveria soar o primeiro grande alarme para Jair Bolsonaro e sua trupe íntima, se eles acreditassem em pesquisa.

Para entender bem o sinal dado por essa pesquisa é preciso recapitular que ela faz parte de uma série, que contém (fora as anteriores) duas sondagens em março e duas em abril.

Na primeira pesquisa de março, Bolsonaro tinha 30% de avaliação positiva, 34% de regular e 35% de negativa – uma variação no tema 1/3 contra e 2/3 neutros ou a favor que caracteriza boa parte do mandato do presidente. E que é uma situação de popularidade que praticamente impede um impeachment na sua faceta política.

A segunda pesquisa de abril, dos dias 25 e 26, é a que foi divulgada hoje.

Nela, Bolsonaro surge com 48% de avaliação negativa, 30% de regular e 20% de positiva. Há uma mudança para um quadro do tipo “metade rejeita e a outra metade tolera ou apoia”. Mas com a diferença de que, nesta segunda metade, apenas 20% apoiam.

Ainda não é uma configuração típica de impeachment. Os números teriam que piorar ainda mais para o presidente. Mas já é uma boa caminhada na estrada que vai do apoio típico que Bolsonaro exibiu na maior parte do seu mandato até o limite crítico em que o sistema político, sistematicamente hostilizado pelo presidente, começa a ficar tentado com a possibilidade de sua deposição.

Há uma ressalva importante a fazer. A pesquisa Jota/Quaest foi feita com uma amostra de mil pessoas ouvidas pela internet. Outras pesquisas recentes, como a da Datafolha, que já pegaram o divisor de águas da saída de Sergio Moro, não revelam a mesma deterioração da popularidade presidencial.

A pesquisa do Datafolha mostrou 33% dos brasileiros apoiando o governo de  Bolsonaro, 38% reprovando-o e 26% o considerando regular.

A pesquisa da Datafolha foi realizada em 27 de abril, com amostra de 1.503 pessoas, e por celular. As pesquisas por telefone ainda têm uma tradição mais estabelecida no Brasil.

Ainda assim, como mostram as últimas eleições, pesquisas acertam ou erram, menos ou mais, ao sabor de circunstâncias que nem sempre se consegue conhecer com precisão.

Se houvesse um mínimo de bom senso em Bolsonaro e seu grupo mais íntimo, incluindo filhos, a pesquisa do Jota acenderia um forte sinal amarelo.

Ela contém alguns dados alarmantes para o presidente bem em seu bastião eleitoral, no caso, nas regiões Sudeste e Sul. Na primeira região, entre as duas pesquisas de abril, a avaliação negativa subiu de 42% para 48%, e a positiva caiu de 35% para 21%. No Sul, a negativa saltou de 42% para 51% e a positiva despencou de 35% para 16%.

Não há como não ver nesses números os efeitos da demissão de Moro e a ruptura entre o “bolsonarismo” e o “lavajatismo”.

Existe a ideia de que o auxílio emergencial, que corresponde, em volume de transferências, a 12 Bolsas-Famílias (como aponta o economista Pedro Fernando Nery, consultor legislativo e colunista do Estadão), possa vir a impulsionar a popularidade de Bolsonaro entre os mais pobres. Mas as aberturas divulgadas das pesquisas do Jota/Quaest e da Datafolha não permitem enxergar se isto estaria acontecendo ou não.

De qualquer forma, as próximas pesquisas de popularidade presidencial serão extremamente importantes para definir o futuro (ou a falta de futuro) do governo de Jair Bolsonaro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/4/2020, quarta-feira.