Sinal positivo no front inflacionário: suínos na China

Há sinais de que se caminha para uma sobreoferta de proteína animal na China, depois do fenômeno contrário por causa da gripe suína a partir de 2019. Se confirmado o novo quadro, pode ajudar na inflação brasileira em 2021, provavelmente no segundo semestre.

Fernando Dantas

18 de novembro de 2020 | 19h54

Num cenário inflacionário desafiante para o Banco Central (BC), uma possível boa notícia, cujo impacto no Brasil se daria em 2021, se desenrola na China neste momento, como explica o economista Livio Ribeiro, especialista na potência asiática.

Pela sua análise, há chances de que a China exerça uma pressão baixista nos preços das proteínas em 2021, mais provavelmente no segundo semestre.

Ribeiro, pesquisador associado do Ibre/FGV, nota que o ano de 2019, antes de a pandemia se manifestar, já vinha sendo um “annus horribilis” para a China. Houve problemas de intermediação financeira afetando o sistema bancário, a renda disponível teve mau desempenho e o endividamento das famílias aumentou.

Mas um problema particularmente grave, e que teve impactos no mundo todo, foi a gripe suína. A doença obrigou a China a sacrificar o rebanho suíno, mas de uma forma radical, eliminando inclusive as matrizes.

Para entender como isso afeta o mercado global de proteínas, acrescenta o economista, é preciso levar em conta que a demanda chinesa aumentou tanto e hoje é tão gigantesca que, mesmo considerando a produção do país, as compras da China são um fator determinante nos preços globais.

Assim, quando a demanda aperta na China, e os preços domésticos sobem, os preços internacionais também se elevam e parte significativa da produção nacional dos países produtores é desviada para o país asiático, levando a um aperto de demanda (pela oferta reduzida) também nessas economias.

Dessa forma, observar o que está acontecendo no mercado chinês de suínos (a proteína dominante no País) é um bom subsídio para projetar o que vai acontecer no mundo.

E, no momento, o panorama chinês dá indícios animadores, segundo Ribeiro. Depois de ter sugado boa parte da produção global, há sinais de sobreoferta de suínos na China, que já estaria afetando os preços.

A inflação chinesa caiu este ano, e o impacto dos suínos foi bastante expressivo, com um recuo enorme. Assim, sempre comparando com o mesmo mês do ano anterior, o IPC, índice dos preços ao consumidor da China, caiu de 5,4% em janeiro de 2020 para 0,5% em outubro.

No mesmo período, o recuo da inflação de suínos foi impressionante: de 116% (!) para deflação de 2,8%. Com isso, a inflação dos alimentos, que era de 20,6% em janeiro, passou a 2,2% em outubro.

Mas Ribeiro acrescenta que essa sobreoferta pode até se acentuar. Com o sacrifício das matrizes suínas, há um ciclo de aproximadamente um ano e meio até que novas fêmeas estejam prontas para serem mães. Isso deve ocorrer justamente em meados de 2021, quando é esperada uma alta da produção suína doméstica da China – o que, naturalmente, vai turbinar ainda mais a oferta.

O economista observa que também há sinais de arrefecimento no mercado futuro. Os contratos futuros de porco magro para dezembro de 2020 estão cotados a 65,3 centavos de dólar, chegam a um máximo de 79 em setembro de 2021, mas caem para 68 em dezembro do ano que vem.

“A China pode ser usada como um farol no caso das proteínas, e sem dúvida o que vemos hoje parece ser uma boa notícia”, conclui Ribeiro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/11/2020, quarta-feira.

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