Sincronia crescente

Estudo do Banco Mundial indica que, a partir de meados da década de 90, aumentou a correspondência entre os movimentos dos preços das commodities e as oscilações da economia global.

Fernando Dantas

20 de janeiro de 2022 | 19h34

Um interessante boxe do recém-divulgado Global Economic Prospects, do Banco Mundial, trata da crescente sincronização de booms e “busts” (grandes quedas) dos preços das commodities. Segundo o trabalho, choques macroeconômicos são uma das causas principais da movimentação em conjunto de commodities, especialmente industriais e energéticas.

O artigo aponta que, embora os ciclos de commodities estejam ligados aos altos e baixos dos ciclos de atividade econômica global, há mais do que isso, em especial questões de oferta. As commodities energéticas, por exemplo, como o petróleo, afetam os custos de muitas outras, inclusive agrícolas. Fenômenos climáticos como El Niño e La Niña impactam simultaneamente muitas matérias primas. E a financeirização do mercado de commodities também é apontada por alguns como fator de sincronização.

O estudo nota que a as commodities energéticas e industriais respondem de forma muito poderosa à atividade industrial, enquanto, no caso das commodities agrícolas, os efeitos dos choques de oferta sobrepujam em muito os impactos dos choques de demanda. A literatura também mostra, segundo o boxe, que choques transitórios afetam mais o preço das commodities industriais, enquanto as agrícolas são afetadas por choques de longo prazo.

Adicionalmente, a partir de meados dos anos 90, o efeito do “fator global” nos preços das commodities industriais aumentou muito, chegando a dobrar no caso de metais básicos e platina. Nesse caso, causas prováveis são maior sincronismo de crescimento e inflação no mundo, liberalização comercial e expansão de instrumentos financeiros.

O trabalho segrega três tipos de choques positivos. O primeiro são choques globais de demanda, que elevam a produção industrial no mundo, a inflação e o preço das commodities. O segundo são choque globais de oferta,  que aumentam a produção industrial mundial, reduzem a inflação, mas elevam o preço especificamente das commodities, que são mais demandadas. O terceiro são choques de commodities, que elevam a inflação e o preço das matérias primas, mas deprimem a produção industrial global. Todos esses tipos de choque também podem ter sua versão negativa, claro.

O trabalho analisa 39 commodities de 1970 a 2021. No período como um todo, choques específicos do mercado de commodities responderam por mais de 60% da variância dos preços das matérias-primas. Alguns exemplos são problemas no mercado de petróleo, o efeito do colapso da União Soviética nos mercados de grãos e metais e o surgimento de novos produtores de commodities.

A partir de 1996, entretanto, o estudo indica que choques macroeconômicos globais se tornaram mais importantes em determinar o preço das commodities, com aqueles pela demanda respondendo por 50%, e os pela oferta, 20%, da variância global do preço das matérias primas.

Essa crescente sincronização da cotação das commodities com as flutuações da economia mundial aumenta a vinculação entre o desempenho de países muito dependentes de matérias primas, como o Brasil, e o ciclo econômico global.

A partir de 2013, o Brasil, assim como outras economias latino-americanas produtoras e exportadoras de commodities, foi profundamente abalado pelo fim abrupto de um longo ciclo de alta das matérias primas. Como já argumentando várias vezes nesta coluna, uma política econômica equivocada e imprudente ampliou as consequências do fim do boom das commodities no Brasil.

Ainda assim, buscar políticas econômicas que atenuem a instável gangorra da dependência das commodities deveria ser uma peça importante do programa de qualquer governo a partir de 2023.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/1/2022, quinta-feira.