Sintonia superfina na China

Livio Ribeiro, analista de China do Ibre/FGV, está mais preocupado do que o habitual com o manejo da economia pelas autoridades chinesas.

Fernando Dantas

14 de fevereiro de 2017 | 11h21

Livio Ribeiro, analista de China do Ibre/FGV, que costuma encarar os riscos à trajetória do gigante asiático com menos alarme do que os observadores mais dados a sobressaltos, reconhece que agora está particularmente preocupado com a sintonia fina da política econômica das autoridades chinesas.

Ele lembra que os temores de “pouso forçado” da China no início de 2015 levaram o governo a uma nova rodada de impulso à economia, com políticas expansionistas. Como ocorreu em momentos passados das últimas décadas em que as autoridades econômicas chinesas pisaram no acelerador, o conjunto de medidas envolveu flexibilização monetária, ampliação da liquidez no sistema financeiro, expansão do crédito e impulso fiscal e parafiscal, além de desvalorização da moeda em relação ao dólar.

Ribeiro explica que esse kit tradicional de estímulo à economia chinesa, que funcionou tão bem no passado, sendo um componente de uma das mais fenomenais trajetórias de crescimento da história, tem o efeito colateral indesejado de ir na direção contrária da mudança estrutural que o governo do país tenta implantar como projeto de médio e longo prazo. A expansão fiscal é em boa parte canalizada para investimentos e construção civil, o aumento de liquidez tende a provocar bolhas de ativos e a moeda mais fraca a estimular a exportação. Já o novo modelo perseguido deveria buscar maior participação do consumo e do mercado interno.

Ele ressalva, porém, que não se trata de abandonar o projeto de conversão estrutural, mas sim de fazer a regulagem entre os objetivos de curto e longo prazo, que nem sempre são convergentes. De qualquer forma, embora o pacote de impulso tenha permitido que a economia chinesa superasse com folga o limite inferior projetado de crescimento no biênio 2015/2016, de 6,5%, as medidas também, como seria de se esperar, intensificaram os desequilíbrios já conhecidos.

Surgiram bolhas de ativos, atingindo as bolsas e o mercado imobiliário, e aumentaram as saídas de capital. As reformas se atrasaram, com exceção da moderação da oferta excessiva em alguns setores, como o siderúrgico.

Neste contexto, houve uma inversão de prioridades para 2017, na direção de se tentar um “ajuste fino”, por meio de diferentes medidas restritivas, nos campos fiscal, monetário e imobiliário – neste último, com medidas administrativas como imposição de limites à compra de novas residências, entre outras.

Na visão de Ribeiro, a meta de crescimento anual de 6,5% até o final da década pode ser demasiadamente forçada diante da agenda de resfriar o motor e relançar a conversão estrutural. Isto, porém, não é um problema tão grande, já que o todo-poderoso presidente Xi Jinping já teria dado sinais de que a meta de crescimento pode ser flexibilizada para ajudar a conter os desequilíbrios.

A dificuldade maior, para o analista, reside numa certa contradição – ou, mais precisamente, na margem muito apertada de conciliação – entre objetivos externos de caráter mais geopolítico, como não dar sinais de fraqueza (como seria o caso de uma desaceleração mais pronunciada) diante da agenda agressiva e hostil de Donald Trump, novo presidente dos Estados Unidos; e objetivos domésticos de natureza mais econômica, como controlar pressões inflacionárias (que poderiam derivar do fim da deflação dos preços ao produtor) e saídas de capital.

Essa estreita margem de ação fica ainda mais difícil de administrar num ano quente em termos da política chinesa, quando serão definidos os participantes do Comitê Central que governará o país no próximo quinquênio, com o pano de fundo de propalados desentendimentos entre Jinping e o premiê Li Keqiang. Dessa forma, as chances de que o governo chinês erre a mão na finíssima sintonia do momento econômico e político cresceram de forma significativa, na visão de Ribeiro. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/2/17, sexta-feira.

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