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Só comunicação clara não resolve

O novo diretor de Política Econômica do BC, Altamir Lopes, indicou quais são os novos objetivos do Copom. O mercado recebeu bem a clareza, mas, infelizmente, ela não vai resolver o impasse da autoridade monetária.

Fernando Dantas

06 de novembro de 2015 | 23h33

Com as últimas iniciativas de comunicação do novo diretor de Política Econômica, Altamir Lopes, o Banco Central (BC) procura reancorar mais uma vez as expectativas inflacionárias, optando pela clareza como arma: no entendimento do mercado, o Comitê de Política Monetária (Copom) diz que vai perseguir 4,5% de inflação em 2017 e tentar fazer com que o IPCA não vare o teto de 6,5% em 2016. Infelizmente, não é certo que clareza seja suficiente para tirar o Copom de uma das situações mais difíceis da sua tumultuada história.

Na verdade, a sensação de alguns analistas é de que o BC deve deixar a Selic ficar no nível atual de 14,25% o quanto puder. Agir é difícil enquanto perdurar o impasse político-fiscal, e também diante das enormes incertezas sobre como será em 2016 a composição inflacionária final entre os poderosos efeitos opostos da queda livre da atividade e do emprego, de um lado, e da grande depreciação cambial, do outro.

Um gestor de recursos nota que a “ameaça” de alta da Selic embutida nos novos objetivos mencionados acima é pouco crível por duas razões. A primeira é que o Copom acaba de não cumprir a sua “ameaça” anterior em relação a 2016. Depois de muito martelar que tudo faria para que o IPCA convergisse para os 4,5% do centro da meta no ano que vem, o BC desistiu do objetivo e simplesmente o adiou por um ano. O que levará o mercado a crer que a autoridade monetária agirá de forma diferente em relação aos novos objetivos para 2016 e 2017?

A segunda razão é que, apesar das negações de Lopes sobre este tema, é de fato muito difícil o Banco Central subir os juros com um PIB que pode cair mais de 3% este ano e outros 3% em 2016. “A ideia é aumentar a queda acumulada de 6% para 8%?”, questiona o gestor.

Ele observa que o BC não está errado em não subir os juros, e que o erro foi ter estabelecido e insistido no objetivo sem cabimento de levar a inflação a 4,5% em 2016, vindo de 10% em 2015, com a grande depreciação e numa economia altamente indexada como a brasileira.

Assim, o gestor considera que o Copom tende a ser reativo e não vai agir preventivamente e “à frente da curva”, como normalmente tentam fazer os bancos centrais. Se esta visão estiver correta, ela significa que o BC não vai manejar a política monetária para efetivamente corrigir desvios que ameacem os novos objetivos para 2016 e 2017. O gestor acha que eventuais elevações da Selic seriam apenas para tentar manter o juro real constante.

Flávio Serrano, economista sênior do Haitong (banco de investimentos), nota que, como no caso do objetivo anterior de trazer o IPCA para 4,5% em 2016, o BC se guia fundamentalmente pelas projeções do seu modelo. E essas, como de hábito, estão mais otimistas que as do mercado para 2016. O Boletim Focus aponta mediana de 6,29% para o IPCA do ano que vem. Já o cenário de referência do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de setembro apontava 5,3%, com probabilidade de apenas 11% de que o teto de 6,5% seja furado.

Serrano ressalva que os principais fatores inflacionários já variaram desde o RTI de setembro, e a projeção do IPCA em 2016 do modelo do BC e a probabilidade de rompimento da meta devem ter aumentado, mas situando-se ainda longe do ponto em que teoricamente se deflagraria uma reação de política monetária. “A probabilidade de ruptura do teto ainda não deve ter passado de 20%”, ele avalia.

Assim, o eventual momento de subir a Selic para garantir o novo objetivo de 2016 ainda seria remoto. Serrano avalia que o Copom trabalha com a ideia de que os fatores inflacionários – ajuste cambial e de preços administrados – têm impacto mais de curto prazo, e os anti-inflacionários, retração da atividade e do mercado de trabalho, de médio prazo.

Na verdade, o economista da Haitong também tende a ver a conjuntura na mesma ótica, e tem uma projeção de IPCA de 5,7% para 2016 (e 5% em 2017), significativamente abaixo da mediana do mercado, o que o faz prever que o próximo passo em relação à Selic é de corte. Ele nota que isso poderia acontecer no terceiro trimestre de 2016, caso o cenário evolua bem em linha com suas projeções, mas, dadas as incertezas, o momento do corte inicial poderia ser postergado.

Serrano frisa também que as suas projeções de IPCA excluem o aumento da Cide. Uma alta de R$ 0,40, que levasse a contribuição para R$ 0,50, faria – nas suas contas – que o IPCA fosse para perto de 6,40% em 2016.

Um economista da equipe da gestora Modal, por outro lado, considera que o Banco Central permanece de “mãos amarradas” por causa da deterioração da política fiscal. Para ele, a ameaça de dominância fiscal – quando a preocupação com a dívida pública faz com que subir os juros piore a inflação, pelo canal da alta do risco e do câmbio – impede o Copom de subir juros. Por outro lado, ele considera que o discurso de ontem (05/11/15, quinta-feira) de Lopes, na divulgação do Boletim Regional do BC, também indicou que o BC não vai baixar os juros como forma de reagir à ameaça de dominância fiscal.

“Para que o Copom volte a fazer algum movimento mais relevante de política monetária, é preciso uma sinalização mais clara sobre as contas fiscais”, resume o analista. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 6/11/15, sexta-feira.

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