Sobem projeções de alta da Selic

Ata rigorosa leva analistas a prever que Selic pode chegar a 14,5%.

Fernando Dantas

15 de junho de 2015 | 23h51

O tom “hawkish” (de rigor anti-inflacionário) da ata do Copom divulgada na quinta-feira (11/6/15), associado às projeções do cenário de referência, já leva alguns analistas a prever que a Selic possa alcançar 14,5% ao fim do atual ciclo de aperto monetário.

Para Tiago Berriel, responsável pela análise macroeconômica da Pacífico Gestão de Recursos, no Rio, “a ata é uma indicação clara de que a Selic deve ir até 14,5%”. Ele nota que o cenário de referência do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de março indicava um IPCA de 4,9% em 2016 com a Selic estável em 12,75% e o câmbio estável em R$ 3,15. De lá para cá, continua o economista, os juros subiram, o dólar ficou estável, a atividade piorou mais que o esperado e a inflação corrente foi bem pior que a projetada.

Assim, o mercado tinha dificuldade em antecipar como seria o cenário de referência no RTI que será divulgado este mês, porque alguns fatores indicavam inflação para baixo, como a piora da atividade, e outros para cima, como a inflação corrente pior.

Na ata divulgada em 11/6, porém, o BC revelou que, com a Selic estável em 13,25% e o câmbio em R$ 3,15, a projeção do IPCA para 2016 ficou estável, isto é, em 4,9%. Pelas estimativas de Berriel, isto significa que, para levar a projeção no modelo do BC para 4,5% em 2016 – o que é tido como um provável objetivo para determinar até onde o Copom vai no atual ciclo de aperto monetário –, a autoridade monetária pode elevar a Selic 1,25 ponto além dos 13,25% do último cenário de referência mencionado. Como 0,5 já foi adicionado na última reunião do Copom, faltariam mais 0,5 e 0,25 ponto porcentual nas reuniões de, respectivamente, julho e setembro.

“Pela linguagem da ata, não dá para saber que vai parar nem em 14,5%, mas as projeções do RTI é que indicam quando isso deve acontecer”, diz o economista. Ele afirma que, em modelos nos quais confia mais, a projeção para 2016 no cenário de referência seria maior, mas acrescenta que “o BC está fazendo mais do que se esperava, e está no caminho certo”. Com uma Selic em 14,5%, Berriel acha que inflação de 2016 tende para 2015. “Mas com a volatilidade, por exemplo, dos alimentos, há até uma probabilidade razoável de que chegue em 4,5%, embora este não seja o cenário básico”.

José Márcio Camargo, economista-chefe da gestora Opus, no Rio, considera que a ata deixou espaço para uma elevação da Selic em 0,25 ou 0,5 ponto porcentual na próxima reunião no final de julho, mas pondera que o Copom deveria elevar em 0,5 com mais uma alta de 0,25 em setembro – chegando a 14,5%. “Se eles quiserem levar o IPCA para 4,5% em 2017, têm que manter o discurso de que vão levar para 4,5% em 2016”, diz o economista.

Para Camargo, o BC teria facilitado sua tarefa se, no início do atual ciclo, tivesse feito elevações maiores da Selic por reunião, de até um ponto porcentual. Agora, porém, ele acha que isso são águas passadas, e só resta à autoridade monetária manter o discurso duro. O economista observa que a inflação de serviços ainda corre acima de 8% ao ano, com sinais muito tênues de melhora. “A taxa de desemprego vai ter que subir mais, porque como está a inflação de serviços e o IPCA nunca vão convergir para 4,5%”, diz.

Já o economista e consultor Alexandre Schwartsman, um dos mais ferrenhos críticos do BC desde o início do governo Dilma, prevê mais uma alta de 0,5%, que levaria a Selic a 14,25%. Ele chama a atenção para a inclusão das expressões “determinação” e “perseverança” na ata, como sinais de que o Banco Central considera que seu trabalho no atual ciclo ainda não terminou. Schwartsman, ex-diretor do BC, conclui seu relatório sobre a ata divulgada hoje escrevendo que “é uma pena que levou tanto tempo para o BCB encontrar esses adjetivos; o desafio permanece em torná-las ações substantivas. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 11/6/15, quinta-feira.

Tendências: