Sorte ou competência?

Pesquisa dos cientistas políticos Daniela Campello e Cesar Zucco, da Ebape/FGV, mostra como sucesso presidencial na América do Sul depende de fatores em que independem dos governantes, como o preço das commodities e o nível dos juros americanos.

Fernando Dantas

24 de janeiro de 2017 | 17h28

Uma questão importante para países latino-americanos, sujeitos a muita alternância entre períodos de boom e de crise, é saber se os eleitores identificam corretamente os méritos e deméritos dos sucessivos governos em termos de assegurar um bom desempenho da economia.

Esse é um tema que os cientistas políticos Daniela Campello e Cesar Zucco, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape/FGV), vêm investigando, tendo inclusive criado um “Índice de Bons Tempos Econômicos (GET, na sigla do nome em inglês)”. O GET é um índice sintético do nível dos juros americanos e do preço das commodities.

A pesquisa de Campello e Zucco indica que a probabilidade de reeleição (ou eleição do candidato indicado pelo incumbente) na América Latina mais do que dobrou, se aproximando de 60%, quando se compara o período de 1980 a 1990, em que o GET era particularmente baixo, com o período de 2003 a 2012, quando era particularmente elevado.

A questão que os dois cientistas políticos pesquisam – a relação entre voto e economia – é bastante complexa, com toda uma literatura acadêmica teórica e empírica, mas é possível traduzir de forma simples o significado das variações do GET e da reeleição na América Latina. Aparentemente, dois indicadores totalmente sem controle pelos governantes da região – juro americano e preço de commodities – condicionam fortemente o “sucesso” destes mesmos governantes, expresso na probabilidade de se reelegerem ou elegerem o seu indicado.

Esse achado é preocupante, porque indica que o eleitorado latino-americano premia o que provavelmente percebe como competência na condução da política econômica, mas que na verdade se trata apenas de sorte.

O exercício de Campello e Zucco foi feito em cima de 106 eleições livres (de um total de 120) em 18 países latino-americanos entre 1980 e 2012.

Um aspecto muito interessante que os dois conseguiram fundamentar é que há uma nítida diferença do desempenho do GET como previsor de sucesso político quando se toma um conjunto de países da América Central e o México, cujas economias no geral são bem menos sensíveis às commodities e ao juro americano, e os países da América do Sul.

Assim, a mudança do cenário internacional – medida pelo GET – de negativo para positivo aumenta em 45 pontos porcentuais (pp) a chance de uma reeleição na América do Sul, e tem impacto zero no grupo da América Central e México. De forma similar, a mesma mudança produz um aumento de 10 pp na popularidade presidencial no Brasil e não tem nenhum efeito no México.

Em outro exercício interessante, os dois cientistas políticos mostram que o “azarado” Fernando Henrique Cardoso, que no saiu do governo em 2002 com uma taxa de aprovação de apenas 24,4%, teria uma aprovação de 45,9% caso as condições internacionais (tais como captadas pelo GET) fossem as mesmas de 2010. Já o “sortudo” Lula, que deixou o governo em 2010 com aprovação de 83%, teria apenas 34% se o GET fosse o mesmo de 2002.

O fato de que, com o GET de 2002, FHC teria 24% de aprovação, e Lula, 34%, vai por conta de outros fatores, como talvez o carisma pessoal. Mas o exercício indica que o fator sorte é muito importante nas democracias da América do Sul.

Uma ressalva é de que, ainda que o índice tenha pouco ou nenhum impacto na América Central e no México, isto não quer dizer que fatores externos não influenciem a política destes países. No México, por exemplo, há uma clara ligação entre o ciclo econômico com o dos Estados Unidos, cuja correlação com o sucesso presidencial mexicano caberia pesquisar.

Outro detalhe interessante da pesquisa de Campello e Zucco é de que períodos de bom cenário internacional com forte melhora na distribuição de renda, como o início do governo FHC (com o Real) e o período final de Lula podem criar dividendos políticos adicionais ao que já se esperaria pela alta do GET. Outra linha de investigação de interesse dos dois cientistas políticos são os canais de transmissão específicos dos “bons tempos econômicos” para a decisão de voto do eleitor. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/1/17, segunda-feira.

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