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Spence, prêmio Nobel: Europa precisa de reformas

Fernando Dantas

25 de janeiro de 2015 | 19h54

Em entrevista à agência Estado no Fórum Econômico Mundial, Michael Spence, prêmio Nobel de Economia, disse que a Europa precisa acrescentar reformas estruturais ao afrouxamento quantitativo anunciado ontem, se quiser voltar a crescer. Spence está confiante na recuperação dos Estados Unidos e prevê que a taxa de juros básica americana comece a ser elevada em meados deste ano. Quanto ao Brasil, ele acha que Dilma perdeu um pouco o equilíbrio entre as agendas de distribuição e crescimento, mas pode estar reajustando este equilíbrio agora. A seguir a entrevista:

 

O novo programa de afrouxamento quantitativo na zona do euro vai resolver o problema da Europa?

Acho que o retorno da economia europeia ao crescimento sustentado e à criação de emprego será desafiante. O melhor cenário é provavelmente este afrouxamento quantitativo do qual os alemães não gostam, que enfraquece o euro de certa forma – isso não é o que eles estão dizendo – e mantém a taxa de juros baixa e torna a vida um pouco mais fácil para as partes mais endividadas da zona do euro, principalmente em termos de dívida soberana. Agora o lado ruim é que eles podem achar, agora que as coisas estão ok, que podem administrar a dívida, que podem sempre contar com isso, o que não é uma boa ideia.

Por quê?

Há um monte de outras coisas que têm que acontecer. Eu vivo na Itália. Nós realmente temos reconfigurar o sistema fiscal, a previdência está nos matando. Há pouco espaço fiscal, o investimento do setor público vai acabar sendo expulso. E nós temos que fazer reformas estruturais para tornar a economia mais flexível, ou não seremos capazes de atrair investimentos, tanto interno quanto externo. E essas coisas são muito difíceis de fazer. Se você fosse um investidor, provavelmente não apostaria no melhor cenário, que depois que o Mario Draghi (presidente do Banco Central Europeu) agiu todo mundo vai fazer o que tem que fazer. A zona do euro parece de longe a parte mais fraca da economia global, talvez com o Japão sendo o único competidor.

Qual a saída para a zona do euro?

A visão alemã com a qual eu tendo a simpatizar é de usar o espaço fiscal com reformas estruturais. Se houver investimento público, há dois retornos. Um é que a gente tem o estímulo imediato, e podemos financiá-lo hoje a taxas de juros muito baixas. Em segundo lugar, temos o efeito de reforço do crescimento, pela elevação do retorno do investimento do setor privado. Mas em algumas partes da Europa, se você não tiver as reformas estruturais, você tem a parte do estímulo inicia e um aumento na dívida do setor público. Mas você não conseguirá o segundo efeito, ou ele será muito pequeno. Isso é algo que eu acho de forma muito firme: as estratégias de crescimento vêm em pacotes, por isso elas são chamadas de estratégias. Não são políticas individuais para se escolher, eu vou fazer isso porque é fácil, mas não farei aquilo.

O sr. poderia dar um exemplo?

A China, na fase pós-revolução e pré-reformas, tinha níveis relativamente altos de investimento do setor público, mas o desempenho econômico era horrível. E então, com as reformas, eles mais ou menos abandonaram a economia centralmente planificada, permitiram que os mercados – não de um dia para o outro, mas de forma razoavelmente rápida – assumissem uma boa parte da alocação de recursos, e começaram o processo de abertura para a economia global. Eles tinham altos níveis de investimento do setor público mas sem impacto no crescimento. Foi quando adicionaram as outras peças que começaram a crescer a 9%. Acho que é similar na Europa. Nós deveríamos usar o espaço fiscal para investimento, mas o retorno desse investimento será muito maior se, simultaneamente, num monte de países que precisam disso, forem realizadas reformas estruturais.

O sr. está confiante em relação à recuperação de economia americana?

Estou razoavelmente confiante, mesmo não achando que os Estados Unidos estejam crescendo a todo o seu potencial. Há desafios em conseguir combinar o lado de capital humano do mercado de trabalho com o lado da demanda, porque a demanda está se movendo tão rapidamente, como resultado da tecnologia e da globalização. E a demora em fechar essa defasagem vai nos desacelerar. Há também questões de investimento público, que não pode ser financiado se decidirmos cortar o déficit orçamentário agora. Por outro lado, há aspectos bastante sólidos. A economia se desalavancou substancialmente, os bancos estão recapitalizados, a economia é flexível, o consumidor está se sentindo um pouco mais confiante, as finanças dos consumidores definitivamente melhoraram, o setor residencial não está nem de longe onde esteve, mas está razoavelmente estabilizado em alguns lugares está voltando bem rapidamente. Acho que há uma recuperação sólida, não acho que ela será descarrilada pela valorização do dólar.

Então os Fed Funds (taxa de juros básica americana) vão subir este ano?

Sim, suponho que no meio do ano, a não ser que haja uma reversão catastrófica que não acho que ocorrerá em função de um choque interno. Se algo muito ruim acontecer, virá de fora.

Como o sr. vê a situação do Brasil, que vem crescendo muito pouco?

O Brasil está recebendo alguns ventos contrários, mas tem grande potencial. O desempenho de crescimento mais recente tem sido desapontador, mas não é difícil de consertar. Eu não entendo completamente, o Brasil sempre consegue ser um mistério. O País cresceu a mais de 7% ao ano por 25 a 30 anos no pós-guerra e então parou. Não é incomum que um país na etapa de renda média desacelere, mas uma parada virtualmente total por 20 anos é muito incomum. Até os brasileiros ainda debatem isso. Eu não tenho conhecimento suficiente para dizer quais são as razões. Meus amigos brasileiros e eu concordaríamos em algumas coisas. A primeira é que a taxa de investimento brasileira é muito baixa, e a do setor público também. A taxa de investimento é algo com 17% ou 18% do PIB, simplesmente não dá para sustentar um crescimento de 5% com isso. Então acho recomendável alguma reconfiguração do espaço fiscal para aumentar o espaço do investimento público, além de remover impedimentos ao investimento do setor privado. E o País não deve se voltar demais para si mesmo.

Como assim?

O Brasil ocasionalmente, em vez de administrar os termos de troca, se fecha, isso geralmente é uma má ideia. Eu acho que tem que deixar a economia se especializar. Por outro lado, não há nada errado em tomar ações defensivas contra políticas monetárias dos países ricos muito incomuns – tem gente que é contra, mas acho essa posição uma loucura. Você tem que lidar com o mundo no qual vive. E acho que o Brasil ocasionalmente deixou o câmbio ficar muito valorizado, em função dessas políticas monetárias de outros países. Não é minha especialidade, mas acho que há mérito em manter continuidade em termos da competitividade do setor exportador, em vez de o câmbio ficar saltando de um nível para o outro em função de seja lá o que for que está movendo o mercado global de capitais. Outra coisa que é um pouco misteriosa é porque o custo do capital é tão elevado no Brasil.

O sr. não tem ideia das razões para isso?

Me esforcei por muito tempo tentar entender porque isso acontece. É um mercado de capitais balcanizado de formas que eu não entendo direito. Algumas partes da economia têm acesso à capital por taxas que não estão disponíveis para todo mundo, é não uma questão de ajustamento ao risco.

Como o sr. vê o fim do superciclo de commodities e os efeitos em emergentes como o Brasil?

Os mercados de commodities de forma pouco sábia apostaram em taxas de crescimento da China que, considerando que é um na transição de renda média, jamais se manteriam. Não há nenhum exemplo de um país nessa fase da transição de renda média crescendo a 10% ou 11%. Isso simplesmente não acontece. Então acho que os mercados de commodities e os mercados de capitais em volta deles ficaram com preços irrealistas, que agora caíram. Esse vento de popa que ajudou um pouco países ricos de recursos como o Brasil não desapareceu, mas ficou menos forte. Então tem que fazer o trabalho de outro jeito. Tendo dito isso, tudo isso é consertável por um governo que mantenha um equilíbrio razoável entre preocupações sociais e a agenda do crescimento.

Os governos brasileiros não vêm mantendo esse equilíbrio?

Acho que (os presidentes) Cardoso e Lula fizeram isso muito bem e Dilma perdeu um pouco o caminho um pouco, e provavelmente está reequilibrando isso. Eu digo isso porque países latino-americanos, incluindo o Brasil, têm índices de Gini muito altos por razões históricas. E ter uma agenda de inclusão é muito importante, mas é algo que tem de ser equilibrado em relação à agenda de crescimento.

Fernando Dantas (fernando.dantas@estadao.com)

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