Súbito bom humor no mercado

Ambiente externo mais favorável (principalmente), com destaque para melhora das expectativas da China, e defesa por Lula de Alckmin impulsionam bolsa e derrubam dólar e juros.

Fernando Dantas

20 de janeiro de 2022 | 19h43

E o mercado, de uma hora para a outra, sacudiu a poeira de tantas notícias ruins e resolveu ficar de bom humor. A bolsa já devolveu as quedas de novembro e dezembro e o câmbio, que caía abaixo de R$ 5,4 quando esta coluna foi escrita, voltou para o nível mínimo dos últimos meses, ocorrido na primeira metade de novembro. A curva de juros desempina com vontade.

Gestores ouvidos pela coluna destacam inicialmente o cenário externo, no qual muitos emergentes também tiveram bom desempenho nos últimos dias. Como nota um deles, o mercado já precificou quatro altas dos Fed Funds, taxa básica dos Estados Unidos este ano, que assim iria de praticamente zero para 1% em 2022.

Essa perspectiva já não parece calamitosa. Como aponta outro gestor, “mesmo com essa alta o juro real americano ainda vai permanecer negativo por um bom tempo”.

E vários emergentes estão mais adiantados do que os países ricos no aperto da política monetária. O Brasil, em particular,  caminha para um juro real de aproximadamente 6% ao ano. “Tem alguma recompensa em apostar em títulos brasileiros”, diz o profissional de mercado.

Adicionalmente, a China, o grande motor da economia global, cortou os juros e vem exibindo uma forma um pouco melhor do que as projeções há alguns meses, ao tempo do colapso da Evergrande e do turbilhão no mercado imobiliário do país como um todo. Com isso, as commodities, como o petróleo e o minério de ferro, voltaram a subir, o que é positivo para emergentes que são grandes exportadores de matérias primas, como o Brasil.

A história do bom humor do mercado, portanto, é fundamentalmente externa, mas, na política doméstica, também veio um alento na reafirmação por Lula, ontem, da sua vontade de ter Alckmin na chapa e de fazer uma abertura ao centro.

As declarações de Lula trouxeram alívio, e para alguns no mercado sinalizaram a possibilidade de uma política econômica mais convencional caso o petista vença as eleições deste ano.

Como era de se esperar, os sinais de Lula, o favorito para ganhar a eleição presidencial, oscilam para um lado e para o outro, assim como o apetite de risco do mercado internacional num ano de grandes incertezas. Como observa o primeiro gestor mencionado acima, mais do que o início de um duradouro período de vacas gordas nos ativos brasileiros, as boas sessões de negociação desta semana podem ser apenas um movimento da gangorra para cima.

No caso de Lula, segundo a fonte, “há claramente uma disputa entre o PT, que quer ocupar o máximo de espaço possível no novo governo [se vencer], e Lula, que sabe que para governar vai ter que dividir o poder com a centro-direita”.

De qualquer forma, ainda há muito ceticismo e incerteza no mercado sobre a futura política econômica, caso Lula seja vencedor este ano. O ex-presidente sabe que há muitos públicos diferentes para agradar, e o que soa bem ao ouvido de um cai muito mal para o outro. Nessa tentativa de sintonia fina entre mensagens frequentemente irreconciliáveis, há muito espaço para ruídos e sustos do mercado até outubro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/1/2022, quinta-feira.