Sucessão no Fed vira tema quente

Atual chairman do banco central norte-americano, Jerome Powell, só permanecerá por mais quatro anos se Joe Biden o reconduzir ao cargo. Esquerda democrata vê Powell como frouxo com os bancos e alguns economistas temem que ele se renda à pressão por política monetária mais dura. A economista Lael Brainard, também do Fed, agrada mais a esses grupos para comandar o BC dos EUA.

Fernando Dantas

18 de novembro de 2021 | 13h13

O mandato de quatro anos do atual chairman do Fed, Jerome Powell, termina em fevereiro, e a sua renomeação ou não para o cargo começa a se tornar um tópico quente na política e nos mercados nos Estados Unidos.

No mercado de apostas, o favorito a ser escolhido pelo presidente Joe Biden ainda é o próprio Powell, mas Lael Brainard, que é membro do Conselho do Fed e vota nas decisões de política monetária, também está sendo cogitada.

Depois da escolha pelo presidente americano, o “chair” (a palavra foi contraída para poder se referir a homem ou mulher) do Fed deve ser confirmado pelo Senado.

Como explica José Júlio Senna, especialista em política monetária do Ibre-FGV, a ala mais à esquerda do partido democrata, que tem forte influência sobre Biden, não está satisfeita com Powell em termos de condução da regulação bancária.

Na visão dessa corrente, Powell, que foi nomeado chairman (ele já era do Conselho do Fed) pelo republicano Donald Trump, está sendo frouxo em termos de regras de disciplina financeira dos bancos.

Algumas das críticas feitas a Powell nessa área é de que avalizou ou liderou medidas de diluição de normas de capital mínimo, liquidez e contenção de tomada de risco;  e de promoção de concentração bancária e limitação do poder do próprio Fed de supervisionar os bancos.

Sejam corretas ou exageradas, essas críticas pautaram recente pronunciamento da poderosa senadora democrata Elizabeth Warren (que foi pré-candidata à presidência) contrário a renomeação de Powell para o comando do Fed.

Segundo Warren, que fez os comentários na presença de Powell em audiência no Senado no final de setembro, o atual chairman do Fed agiu para tornar o sistema bancário menos seguro, razão pela qual ela o considera “perigoso” na posição que hoje ele ocupa.

Já Brainard é vista como bem mais rígida em termos de regulação bancária.

Mas Senna observa que há outra frente de ataque à recondução de Powell, oriunda mais de economistas – e que o especialista do Ibre considera, inclusive, mais “forçada”. Essa segunda linha de restrição a Powell está ligada à política monetária.

É algo que estranha, em princípio, porque o atual chairman do Fed conduz uma política monetária que, para o padrão de algumas décadas atrás, seria considerada bem frouxa.

Os Fed Funds, taxa básica dos Estados Unidos, estão em quase zero, enquanto a inflação caminha este ano para ficar acima de 6%. E adicionalmente o Fed comanda um programa gigantesco de injeção de liquidez de US$ 120 bilhões por mês, na base de comprar títulos de longo prazo do mercado para baixar as suas taxas.

E não é que os Estados Unidos estejam em recessão: a economia cresce, embora menos que as projeções mais otimistas de alguns meses atrás, e o mercado de trabalho está aquecido.

Na verdade, a política monetária estimulante do Fed está ligada à longa ressaca da crise financeira global de 2007-2009, depois da qual o mundo rico, incluindo os Estados Unidos, ingressou numa fase de juros e inflação baixíssimos e crescimento decepcionante.

Essa “malaise” no mundo avançado – agravada pelo aumento de desigualdade nas últimas décadas – produziu uma mudança de mentalidade nos principais bancos centrais, numa direção de políticas monetárias mais frouxas.

Nos Estados Unidos essa abordagem foi particularmente reforçada por Janet Yellen, predecessora do atual chairman. Mas o fato é que Powell não mudou essa mão mais leve, e até de certa forma a institucionalizou ao liderar a nova definição de que o Fed mira uma inflação de 2% numa média de anos – isto é, a inflação ir acima disso num ano não é problema porque pode vir abaixo depois.

Mas esse histórico à frente do Fed parece não ser suficiente para alguns economistas na ponta mais “dovish” (a favor de políticas monetárias mais frouxas) do debate econômico nos Estados Unidos.

Em recente análise no site Project Syndicate (que distribui artigos de analistas eminentes para diversos jornais mundo afora), o economista Brad DeLong criticou uma eventual renomeação de Powell para a condução do Fed.

DeLong reconhece que Powell seguiu a linha de Yellen, mas prevê que isso deixará de ocorrer. Para DeLong, com Trump os republicanos experimentaram uma ambiguidade em relação à política monetária, porque o ex-presidente, empresário imobiliário, tinha um viés pró juro baixo. Na sequência, o choque econômico da Covid reforçou o campo favorável a uma postura monetária mais estimulante.

Agora, porém, à medida que Trump e a Covid perdem protagonismo no cenário, DeLong prevê que os republicanos voltarão à sua postura a favor de uma política monetária mais dura, especialmente se esta for prejudicar a atividade econômica com os democratas no poder. E, para DeLong, Powell, que é filiado ao partido republicano, tenderá a ceder.

Mas Senna frisa que há um poderoso argumento a favor de que Biden reconduza Powell para mais um mandato à frente do Fed. O momento econômico é bastante delicado e há uma clara estratégia traçada em termos de política monetária.

O Fed anunciou que começa o “tapering” (redução das compras de títulos longos) neste mês, e que ele também ocorrerá em dezembro. A redução mensal é de U$ 15 bilhões. Se ela ocorrer todo mês, o tapering se completa em oito meses (lembrando que parte-se de US$ 120 bilhões), ou ao final do primeiro semestre de 2022.

O Fed também sinalizou que a elevação da taxa básica só se dará ao fim do tapering – não tem sentido tentar simultaneamente estimular a economia injetando liquidez e desestimular subindo a taxa básica.

Como o anúncio formal do tapering por enquanto se limita a novembro e dezembro, a partir daí está em aberto. Dá para pensar que o Fed poderia acelerar ou desacelerar o processo, com maior ou menor redução mensal da compra de títulos. Isso significaria, respectivamente, encurtar o período até o momento em que os Fed Funds podem ser elevados, ou estendê-lo.

No momento, avalia Senna, como o que está incomodando é a alta da inflação acima do previsto, se fosse para mudar o Fed provavelmente iria na direção de acelerar, e não de retardar, o tapering.

Mas os ventos mudam e o importante é que essa decisão está em aberto, e dentro de um arcabouço claro e coerente para enfrentar o difícil momento atual, pleno de incertezas, ambiguidades e elementos quase inéditos em termos do cenário econômico e inflacionário.

Não é boa hora para mudar o técnico do time.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com) 

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/11/2021, quarta-feira.