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“Suicídio” se diz sim, “suicídio” se diz não

Situação da Grécia é tão difícil e confusa que prestigiados analistas internacionais têm visões diametralmente opostas.

Fernando Dantas

16 de junho de 2015 | 00h00

À medida que o impasse entre a Grécia e a “troika” (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI) se aprofunda, causando tensão nos mercados globais, aumenta o debate sobre qual seria o melhor curso de ação para o combalido país mediterrâneo. Se forem prestar atenção nos conselhos dos observadores dos países ricos, entretanto, os dirigentes gregos vão ficar ainda mais confusos. Isso se percebe no contraste entre dois artigos recentes de dois prestigiados analistas econômicos: de Wolfgang Münchau, do Financial Times, e de Anatole Kaletsky, chairman do Institute for New Economic Thinking.

Münchau avalia que a Grécia não tem nada a perder em recusar as propostas dos credores. Partindo do fato de que só estão previstas eleições no país em janeiro de 2019, e que, portanto, há tempo para pensar mais estrategicamente, ele estimou que aceitar as condições dos credores significaria um recuo do PIB de quase 13% em quatro anos, por causa do aperto fiscal previsto. E isso vindo na esteira da enorme perda de produto que o país já sofreu. Nesse cenário, a dívida grega chegaria próximo de 200% do PIB. Para Münchau, trata-se de um “duplo suicídio”: econômico e político (para o governo).

Já no caso de declarar moratória e sair do euro, o analista acha que a Grécia teria uma opção melhor. O país se livraria do ajuste fiscal “lunático”, e poderia fazer um ajuste apenas para ter um modesto superávit primário e honrar os credores privados, visando voltar ao mercado mais à frente. O calote seria aplicado no FMI, BCE, no mecanismo de apoio financeiro da União Europeia (UE) e nos empréstimos de outros países europeus.

Munchäu escreve que o risco grego iria diminuir no “day-after”, já que, com a saída do euro, o temor de uma desvalorização seria eliminado (ela ocorreria imediatamente) e os credores privados veriam menor risco de calote, já que o país estaria aliviado do pagamento aos credores oficiais e teria incentivos a conquistar a confiança do mercado. Os efeitos da desvalorização no dinamismo econômico não seriam dos maiores, pois a Grécia é relativamente fechada, mas existiriam. Ele prevê, nesse caso, uma transição caótica seguida de rápida recuperação.

No final do artigo no FT, o analista dá uma torcida no seu argumento, dizendo que Alemanha e França perderiam 160 bilhões de euros com o calote grego, e tenderão a ceder se a Grécia rejeitar a oferta atual esta semana. Neste caso, a Grécia fica no euro com uma dívida menor (porque uma forte redução acabaria sendo aceita) e menor necessidade de ajuste fiscal para honrá-la. O importante seria recusar o que agora está sobre a mesa.

Kaletsky usa o mesmo termo dramático – suicídio – para fazer uma análise quase inversa. O analista acha que o grande engano de Alexis Tsipras, primeiro-ministro grego, é achar que “a Europa precisa da Grécia tão desesperadamente quanto a Grécia precisa da Europa”. Ele prevê que a Grécia vai ceder às atuais exigências da Troika até o fim de junho.

Segundo Kaletsky, se o BCE parar de dar suporte ao sistema bancário grego (em caso de não acordo), a Grécia, alijada de qualquer financiamento externo, “vai se tornar um pária econômico, a Argentina da Europa, e a pressão pública provavelmente vai tirar o Syriza (partido do governo) do poder”.

O embasamento da visão do analista vem da sua visão de que o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, está errado em achar que a crise grega pode abalar o sistema financeiro global. Ele ironiza o fato de Varoufakis ser especialista em Teoria dos Jogos e, supostamente, alguém bem preparado para esse tipo de embate.

Kaletsky considera que o enorme programa de compra de títulos do afrouxamento quantitativo anunciado pelo BCE em janeiro “erigiu uma muralha impenetrável que há muito tempo era necessária para proteger a união monetária de colapsos financeiros no estilo Lehman (Brothers)”.

Assim, o contágio da quebra em massa dos bancos gregos não ameaça mais outros países vulneráveis, como Portugal, porque, se houver pressão, o BCE comprará bônus portugueses ilimitadamente, até que ela desapareça. Se houver fuga de euros de Portugal, o BCE reciclará a moeda para Portugal via interbancário, também de forma ilimitada. Ele acha que o governo grego não percebeu essa mudança, e hoje sente-se como um homem-bomba que pode detonar a Europa caso seus interlocutores não cedam, quando na verdade é apenas alguém que aponta um revólver para a própria cabeça. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 15/6/15, segunda-feira.

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