Superávit comercial com exportação em queda

Superávit comercial de março foi atingido com queda maior das importações do que das exportações. Situação do comércio exterior continua preocupante, para especialistas.

Fernando Dantas

02 de abril de 2015 | 17h17

O superávit de US$ 458 milhões na balança comercial de março não sinaliza uma virada positiva no comércio exterior brasileiro, como ocorrido em outros episódios de grande depreciação cambial. Na verdade, o saldo foi produzido pela queda intensa das importações, que superou a retração das exportações. O recuo nas compras externas, por sua vez, deriva do tombo da atividade econômica. Já as exportações, mesmo com o câmbio mais favorável, penam com o forte recuo do preço das commodities e com a desaceleração dos países sul-americanos, mercado importante para as manufaturas brasileiras.

“O cenário está ruim, tudo cai, e parece que exportação e importação competem para ver quem vai pior”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Ironicamente, ele chama o saldo positivo de março de “superávit negativo”, já que veio junto com forte queda da corrente de comércio. Em março, as importações recuaram 18,5% e as exportações caíram 16,8%. No primeiro trimestre, a retração das importações, exportações e corrente de comércio foram de, respectivamente, 13,2%, 13,7% e 13,4%. Todas as comparações são com o mesmo período de 2003.

Castro observa que a queda das commodities afeta o ingresso de divisas em boa parte dos países sul-americanos e limita sua capacidade de importação, o que afeta as exportações brasileiras de manufaturados.  Já no mercado norte-americano, em que a economia se recupera, é preciso reabrir espaços para vendas brasileiras, como máquinas e aviões, o que toma algum tempo e demanda financiamento. Ele nota que o orçamento do Proex para 2015, de cerca de R$ 1,5 bilhão, já está todo comprometido antes mesmo do contingenciamento.

“Falta dinheiro para o Proex e há rumores de que querem reduzir a equalização”, comenta o presidente da AEB.

Ele lembra ainda que a desvalorização da taxa de câmbio só beneficia, em termos de competitividade de preço, os manufaturados, que correspondem a 40% da pauta (pela classificação oficial). Os outros 60% são commodities, cujo preço é dado pela cotação internacional. “Neste caso, o câmbio passa a ser um fator de rentabilidade”, diz Castro. Ainda assim, com as quedas de cerca de 50% ou mais da cotação do petróleo e do minério de ferro, a taxa de câmbio não compensa as perdas em preços, acrescenta.

Outro aspecto dos números da balança de março destacado pelo presidente da AEB é que, na queda de 16,3% nas importações de bens de capital, enquanto a maquinaria industrial registrou recuo de 18,2%, o único sub-item que teve, ainda que pequena (1,8%), foi o de partes e peças para bens de capital.

“Isso mostra que, em vez de importar máquinas, as empresas deram prioridade à manutenção, o que prolonga a vida útil mas pode ser prejudicial à produtividade”, analisa Castro.

Já Lia Vals Pereira, especialista em comércio exterior do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas no Rio, nota a queda em março de quase 40% nas exportações para a China. Esse recuou foi influenciado principalmente pelos preços. Segundo os índices compilados por Lia, o preço da cesta de commodities exportadas pelo Brasil recuou 30% em março, enquanto os preços subiram 6%.

A pesquisadora também observa que os automóveis foram dos poucos itens de destaque da pauta de exportações que cresceram em março (sempre em relação ao mesmo período de 2013, com alta de 6%. Ela acha que isso pode refletir a volta de negociações automotivas com a Argentina e o novo entendimento com o México.

Tanto Castro, da AEB, quanto Lia, do Ibre, têm projeções oficiais de superávit de US$ 8 bilhões em 2015 mas já acham que o resultado pode ser pior, com quedas fortes tanto das exportações quanto das importações. “O superávit de março não é para ser lido como uma reversão de tendência”, resume Lia. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 2/4/15, quinta-feira.