Superávit comercial de US$ 50 bi?

Associação de exportadores deve aumentar sua projeção de saldo na balança comercial, mas melhora vem da queda das importações.

Fernando Dantas

10 de março de 2016 | 23h20

A Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) já acha que o saldo comercial pode atingir US$ 50 bilhões em 2016. Não é uma projeção oficial. As últimas previsões foram divulgadas em dezembro, e previam um superávit de US$ 30 bilhões. Agora, porém, José Augusto de Castro, presidente da AEB, avalia que “o saldo comercial deve ultrapassar US$ 40 bilhões, podendo chegar a US$ 50 bilhões”.

Parece uma boa notícia, mas é bem menos positivo do que a primeira impressão, na análise de Castro. Já desde o ano passado, ele vem dizendo que a reação da balança comercial consiste no crescimento do “superávit negativo”, um jogo de palavras pelo qual aponta que o processo é basicamente movido pela recessão e pela compressão das importações.

Mas os dois primeiros meses de 2016 foram surpreendentes até para o presidente da AEB, pela força vertiginosa que o “superávit negativo” assumiu.

Do início de janeiro até a primeira semana de março, as importações foram de US$ 22,5 bilhões, comparado a US$ 35,8 bilhões no mesmo período de 2015, com queda de 35,6%. Na “ponta”, como se diz no mercado, a queda prossegue no mesmo ritmo: em fevereiro, foi de 34,6%. Na projeção de dezembro, a AEB antevia um recuo das importações de 9,5%, mas, depois da contração impressionante neste início do ano, Castro já prevê que o recuo será muito maior.

Ele acrescenta que a retração das importações atinge todas as categorias de bens. Os bens de capital, por causa da queda drástica do investimento; os insumos, pela redução da produção industrial; os bens de consumo duráveis e não duráveis, pelo aumento do desemprego e da inadimplência e pela queda da renda per capita; e até os combustíveis e lubrificantes, na onda recessiva geral que atinge a economia.

Já nas exportações, o presidente da AEB considera que o impacto da forte desvalorização desde o ano passado foi decepcionante até agora. “Nós sabemos que o impacto do câmbio na exportação de manufaturados demora, mas já tem um ano que o real começou a desvalorizar e nós vimos muito pouco até agora”, ele diz.

Até a primeira semana de março, as exportações foram de US$ 27,7 bilhões, com uma queda de US$ 2 bilhões, ou de 7%, ante os US$ 29,7 bilhões exportados no mesmo período do ano passado. Para o ano, a previsão é de queda de 1% das exportações, e Castro considera que por enquanto a projeção deve ficar próxima deste nível mesmo – “1% a mais, 1% a menos, por aí”.

Em termos das categorias, até a primeira semana de março, os manufaturados cresceram 0,5%; e os semimanufaturados e os básicos recuaram, respectivamente, 5,4% e 7,8%.

O presidente da AEB nota que “provavelmente” está havendo um processo de substituição de importações nas manufaturas, que ele não tem como medir. Ainda assim, acrescenta que a produção industrial continua com tendência de queda, o que mostra que a substituição de importações ainda não pode ser considerada como um mecanismo que esteja levando à recuperação da indústria via câmbio.

Segundo Castro, a recente recuperação do real gerou insegurança na indústria. “Os empresários estão pensando se devem deixar de pensar em R$ 4 como uma espécie de piso, como alguns chegaram a fazer recentemente, ou se está mais para R$ 3,8 ou R$ 3,6. Para ele, a única boa notícia é a arrumação de casa na Argentina, um dos principais compradores do Brasil, e que pode vir a aumentar sua demanda por exportações. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 8/3/16, terça-feira.