Superciclo de liquidez

Depois de ser turbinada pela alta das commodities, e sofrer com sua queda, economia brasileira agora é sustentada pelas montanhas de dinheiro sobrando na praça global.

Fernando Dantas

18 de agosto de 2016 | 13h32

O economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall, comenta que recentemente ouviu pela primeira vez a expressão “superciclo de liquidez” em referência ao ambiente financeiro internacional. A expressão, evidentemente, é uma alusão ao “superciclo de commodities”, o maná que jorrou do céu, do início da década passada até aproximadamente 2014, para países exportadores de matéria-prima como o Brasil.

Será que a superliquidez é uma nova boia para a economia brasileira depois que a fase de ouro das commodities ficou para trás? É verdade que os dois fenômenos não são independentes. Há certa correlação entre liquidez e valorização de commodities e de moedas de emergentes. Ainda assim, apesar da recuperação das matérias-primas dos seus mais baixos níveis recentes, a bonança que hoje está sustentando o rally das moedas e das ações brasileiras e de outros emergentes parece mais estreitamente ligada à abundante liquidez em si mesma.

Kawall observa que, no início do ano, a impressão era de que, após a grande crise de 2008 e 2009 e do período subsequente de – primeiro – expansionismo fiscal e em seguida experimentalismo monetário, o mundo estava finalmente voltando à trilha de políticas econômicas mais convencionais.

“As pessoas achavam que o Fed (BC dos EUA) poderia subir quatro vezes (a taxa básica, Fed Funds) em 2016, e que o Reino Unido viria na cola”, ele diz.

Agora, a discussão é se o Fed vai elevar os Fed Funds alguma vez este ano e o Banco da Inglaterra, em função da piora de perspectivas provocada pelo Brexit, voltou ao afrouxamento quantitativo. É muito significativo também, continua Kawall, o paper que John Williams, presidente do Federal Reserve de São Francisco, acaba de divulgar, em que põe no debate novamente ideias antideflacionárias como uma meta maior de inflação, meta de PIB nominal e um arcabouço mais permanente de política fiscal anticíclica.

Kawall chama a atenção para o fato de que Williams é o sucessor da chair do Fed, Janet Yellen, na presidência do Fed de São Francisco. Os dois são próximos e Williams é um dos economistas e colegas que Yellen mais cita.

Em termos das consequências para o Brasil, Kawall compartilha da visão de que o “superciclo de liquidez” compra tempo para a estratégia gradualista de ajuste fiscal que está sendo tocada pelo governo do presidente em exercício, Michel Temer.

Mas o economista faz um paralelo com os anos seguintes ao plano Real. Depois de um susto inicial logo em seguida ao lançamento do plano, com a crise mexicana na virada de 1994 para 1995, consolidou-se um mercado internacional favorável aos emergentes, e que inclusive deu suporte a regimes de câmbio fixo ou semifixo, como o brasileiro, até que, em 1997, com a crise dos países do Leste asiático, o vinho transmutou-se em água do dia para a noite.

Em 1996, Fernando Henrique Cardoso chegou a dizer que “é fácil governar” e, à época, chegava a tratar com ironia a insistência da equipe econômica no ajuste fiscal. A partir de 1997, porém, o ex-presidente viveu de tranco em tranco do mercado internacional, tendo sido forçado a fazer um ajuste fiscal drástico em 1998 e 1999, ao mesmo tempo em que a flutuação do real em janeiro de 1999 atingiu em cheio a sua popularidade, que nunca mais voltaria a ser a mesma.

A grande questão, portanto, é de saber se o superciclo de liquidez vai garantir ao Brasil o período de cerca de dois a quatro anos necessário para que a correção gradual do desastre das contas públicas comece a se refletir efetivamente em indicadores vitais como o superávit primário e a relação entre a dívida pública e o PIB. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/8/16, terça-feira.

Tendências: