Surpresa boa na indústria

Resultado da produção industrial em dezembro vem muito melhor do que projeções e pode por um piso nas revisões para baixo do PIB de 2022, segundo Luana Miranda, da Gap Asset, no Rio.

Fernando Dantas

03 de fevereiro de 2022 | 11h02

A produção industrial de dezembro foi uma notícia econômica muito boa, considerando o estado bastante debilitado da economia brasileira. A indústria cresceu 2,9% ante novembro (na série dessazonalizada), significativamente acima do teto das previsões do Projeções Broadcast, de 2,2%, e da mediana de 1,6%.

Como aponta Luana Miranda, economista da Gap Asset, no Rio, é possível que a produção industrial de dezembro coloque um piso nas revisões para baixo do PIB de 2022. A previsão mediana do mercado no último Boletim Focus divulgado foi de crescimento da economia de 0,3% em 2022.

Ela observa que houve alta bem significativa em dezembro da produção industrial em informática e eletrônicos, setores muito abalados pela falta de insumos nas cadeias produtivas globais.

Pode ser um sinal, portanto, de algum alívio nesse front de problemas de oferta e logísticos.

“Mas é arriscado extrapolar para o ano, dado o avanço da ômicron, e ainda mais combinada com a política de ‘Covid zero’ na China”, ressalva a analista.

Ela ressalta também que o bom resultado da indústria foi bastante generalizado, com muitos destaques, como metalurgia, alimentos e vestuário. Houve avanço em todas as chamadas ‘categorias de uso’ – bens de capital, intermediários, de consumo (duráveis e semiduráveis/não duráveis).

Por outro lado, a base de comparação é baixa, por causa do desempenho muito ruim da indústria ao longo de 2021. Em termos de crescimento mensal ante o mês anterior, dessazonalizado, houve oito recuos, um crescimento nulo e apenas três avanços no ano passado.

Miranda destaca finalmente que o bom resultado da indústria em dezembro foi em parte “inflado” por um fator fortuito no setor automobilístico. As montadoras correram para terminar veículos semiprontos antes da entrada em vigor de um novo limite legal de emissão de poluentes.

“Houve notícia de peças chegando por transporte aéreo e até de helicóptero”, aponta a economista, acrescentando que essa corrida na produção, por conta da legislação ambiental, poderia até levar a uma “ressaca” no setor no início de 2022.

Feita essa ressalva, porém, Miranda reforça que o resultado da indústria em dezembro foi efetivamente forte e generalizado. A Gap já estava na ponta mais otimista do mercado, com projeção de 2,1%, mas o avanço de 2,9% foi uma surpresa.

A indústria fechou 2021 com crescimento de 3,9%. Segundo a economista, o resultado da produção industrial em dezembro não apenas puxa para cima o resultado do quarto trimestre, mas também deixa um carregamento estatístico positivo de 1,9% para o primeiro trimestre de 2022.

Ela recapitula, em relação à atividade econômica no último trimestre de 2021, que outubro foi um mês muito ruim, com decepções fortes na indústria, no varejo e nos serviços. Esses resultados alimentaram o pessimismo e uma rodada de revisões para baixo nas projeções de PIB de 2022.

Em novembro, o varejo e os serviços tiveram desempenho melhor, enquanto a indústria veio em linha com as expectativas. Se os resultados do varejo e dos serviços de dezembro, como os da indústria, surpreenderem positivamente, Miranda pode fazer alguma revisão para cima da projeção de crescimento do PIB no quarto trimestre, no momento de 0,1%.

Isso não muda a previsão de crescimento do PIB de 4,5% em 2021, mas, pelo aumento do carregamento estatístico, poderia dar um viés de mudança para cima da projeção de PIB de 0,2% em 2022 da Gap.

Em termos dos analistas em geral, a perspectiva um pouco melhor de carregamento estatístico de 2021 pode compensar, segundo a economista, as revisões para baixo no PIB agropecuário de 2022 que vêm sendo realizadas em função de razões climáticas, como a seca no Sul. Ela própria ainda deve rever um pouco para baixo o seu PIB agropecuário para 2022.

A analista nota ainda que as sondagens de confiança indicam que, em vários setores, os estoques estão muito baixos – embora já tenha havido algum aumento do ponto mais reduzido – e a maior parte das empresas industriais espera que haja normalização dos gargalos de oferta e logísticos no primeiro semestre.

Essa combinação sugere reposição de estoques ao longo do ano – mesmo que a demanda não seja grandes coisas –, o que também traz um viés positivo para o PIB (mas não muda o fato de que há muitos ventos contrários).

Outro fator positivo, finalmente, é a perspectiva da redução do custo de energia. A analista diz que, na Gap, a projeção de bandeira no final do ano já saiu de vermelha 2 para amarela (o tema foi abordado neste espaço na coluna de ontem).

Dito isso, Miranda acrescenta que “não dá para dizer que os problemas da indústria estão resolvidos para este ano”.

Muitos obstáculos permanecem: gargalos, inflação ainda alta (mesmo que desacelerando ante 2021), renda em queda num mercado de trabalho que engatinha puxado pelo emprego informal, juros ainda em elevação, câmbio desvalorizado e outros fatores de alta de custo, ômicron etc.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/2/2022, quarta-feira.