Tarde demais para reindustrializar?

O prestigiado economista Dani Rodrik, que vê papel importante da indústria no desenvolvimento acelerado, acha que esse caminho pode ter se tornado inviável para vários emergentes, inclusive o Brasil. Mas ele considera que reforço de instituções e melhora da educação podem levar a um processo mais lento, porém também mais estável, de convergência em relação ao nível sócio-econômico do mundo rico.

Fernando Dantas

20 de agosto de 2015 | 00h35

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tocou na terça-feira (18/8) na tecla sensível do processo de desindustrialização do País ao dizer que a reforma do PIS/Cofins “vai ser mais um fator para estimular o renascimento da indústria”. Há poucos dias, o “neodesenvolvimentista” Luiz Carlos Bresser-Pereira indicou que o câmbio por volta de R$ 3,5 já dá competitividade industrial à economia brasileira.

A estagnação da produção industrial nos níveis pré-crise global permanece como um tema aparentemente inevitável da agenda pró-crescimento que começa a ser discutida mais intensamente em meio à crise política. Embora a atual equipe econômica esteja fundamentalmente voltada ao ajuste fiscal de curto e médio prazo, a influência do pensamento que vê a indústria como central no processo de desenvolvimento das economias emergentes permanece muito viva no Brasil, e é algo que os formuladores de política econômica não ousam ignorar.

Entretanto, aquele que provavelmente é o acadêmico de maior prestígio internacional que endossa a centralidade da indústria no desenvolvimento não tem boas notícias a dar aos neodesenvolvimentistas brasileiros. O economista Dani Rodrik, de Harvard, vem revelando um crescente ceticismo em relação à possibilidade de que a maior parte dos países de renda média possa fazer o salto em direção ao pleno desenvolvimento com base na industrialização, como fizeram Coreia do Sul, Taiwan e, agora, a China.

Em recente artigo, Rodrik escreve que “diferentemente das economias do Leste Asiático, os mercados emergentes hoje não podem contar com excedentes exportáveis de manufaturas como seu motor de transformação industrial e crescimento”. Já num paper de fevereiro, ele buscou mostrar que atualmente a desindustrialização mais dramática ocorre nos países emergentes, com destaque para a América Latina, e não nos países ricos onde uma transição pós-industrial para serviços sofisticado é de se esperar.

O economista atribui a “desindustrialização precoce” dos emergentes (com as exceções de praxe no Leste asiático) ao comércio internacional e à globalização, e escreve que o fenômeno “reduz o potencial de crescimento e as possibilidades de convergência para os níveis de renda das economias avançadas”. Em outro artigo, ele escreve que “uma consequência imediata (da desindustrialização precoce) é que países em desenvolvimento estão se transformando em economias de serviços em níveis muito mais baixos de renda (comparados aos países ricos que fizeram esta transição no passado)”.

É conhecida a diversidade do setor de serviços, que tanto pode concentrar setores e empresas de alta produtividade, como nos países ricos, ou de produtividade abaixo mesmo daquela das indústrias tradicionais, perfil típico de países em desenvolvimento.

Rodrik também acha que a desindustrialização precoce pode trazer problemas políticos e tendências populistas, já que vê, como peças de uma democracia durável, algumas características associadas à indústria: movimento sindical organizado, partidos políticos disciplinados e competição política no eixo direita-esquerda.

No seu mais recente artigo, entretanto, o economista acena com uma luz no fim do túnel para os países que enfrentam a desindustrialização precoce. Infelizmente para os neodesenvolvimentistas brasileiros, entretanto, não se trata de reindustrialização.

Rodrik agora prega o reforço da educação e dos fundamentos econômicos de longo prazo para esses países, de forma muito semelhante à visão mais ortodoxa. Ele diz que, com esta agenda, não se cresce a taxas anuais de 7% a 8%, como na Ásia, mas pode se crescer de forma estável a um ritmo entre 2% e 3%. Ele acrescenta que há uma vantagem em ser “tartaruga” em vez de “lebre” na rota do crescimento: mais estabilidade e menos crises no processo de convergência para a renda dos ricos. Comparando a China ditatorial com a Índia democrática, ele escreve que “os desafios de transformação política e institucional são imensuravelmente maiores” no primeiro caso.

E o economista tem até uma palavra positiva sobre o Brasil, onde “a crise política demonstra a maturidade democrática do país, e é possivelmente um sinal de força e não de fraqueza”. Rodrik acha exemplar o fato de que a investigação do Petrolão tenha chegado nos níveis mais elevados da sociedade e do governo sem interferência política e sem que o processo tenha se transformado numa “caça às bruxas”.

Para um País como o Brasil, portanto, o mais prestigiado defensor do papel da indústria no desenvolvimento recomenda uma agenda de gradativo fortalecimento institucional e de fundamentos – e não mais a emulação do crescimento rápido baseado (para ele) na indústria do Leste Asiático. (fernando.dantas@estado.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 19/8/15, terça-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: