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Tecnologia, desigualdade, pessimismo – a visão de Shiller

Minha última matéria de Davos, um balanço do Fórum na visão originalíssima do genial prêmio Nobel Robert Shiller. Ele tenta explicar a estranha combinação de juros baixíssimos, fraco crescimento e mercados em alta (neste último caso, nos Estados Unidos).

Fernando Dantas

26 de janeiro de 2015 | 20h20

Tecnologia, desigualdade e pessimismo. Estes foram, na visão do prêmio Nobel de Economia Robert Shiller, os temas que deram o clima do Fórum Econômico Mundial de Davos de 2015. Shiller participou de todo o evento, do primeiro dia, na quarta-feira, até sábado, quando se encerrou o encontro. Para ele, os três temas acima estão interligados.

“O Fórum Econômico Mundial parece interessado em ‘gadgets’ e coisas novas, nós falamos o tempo todo sobre internet, tecnologia – mas como eu escrevi na terceira edição do meu livro ‘Exuberância Irracional’, há na verdade uma sensação de ‘malaise’ trazida pelo rápido avanço da tecnologia, porque as pessoas estão preocupadas com os seus empregos e o seu futuro de longo prazo”, disse Shiller, em conversa com a agência Estado no sábado.

Segundo o economista, há uma “nova normalidade” (“new normal”) de pessimismo, com o risco de as pessoas perderem seus empregos para máquinas. Ele dá como exemplo o Direito, em que logaritmos de busca legal tornam o trabalho muito mais eficiente, mas acabam reduzindo a necessidade de advogados.

Assim, as pessoas estão preocupadas com o futuro, e tendem a poupar mais num ambiente econômico em que há poucas oportunidades de investimento. A busca por imóveis, ações e títulos eleva o preço dos ativos, e assim é possível explicar a estranha situação de taxa de juros baixíssima, crescimento fraco e mercados em alta. Ele ressalva que este quadro descreve mais a situação americana do que a europeia ou de emergentes como o Brasil, no que tange ao valor dos ativos.

Outro tema recorrente em Davos, segundo Shiller, foi a desigualdade. Ele estranhou, que Thomas Piketty, o economista francês autor do best-seller “O Capitalismo no Século XXI” não só não tenha vindo ao Fórum como não tenha sido discutido. Com seu livro, Piketty relançou o debate sobre desigualdade, especialmente nos países ricos. Apesar dessa lacuna, o tema foi discutido, e Shiller também vê ligações com a questão da tecnologia: “Os benefícios de todas essas inovações tecnológicas não estão sendo repartidos, estão indo apenas para a elite rica”.

Sobre o programa de afrouxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês) da zona do euro, outro assunto quente de Davos, Shiller disse que “deve ajudar, mas não é uma cura milagrosa”. A sua visão parece com o consenso de Davos à primeira vista, mas quando o prêmio Nobel a detalha mais, nota-se que ele é ainda mais cético. Shiller acha que a recuperação da economia americana, da qual muitos analistas acham que uma das causas foram as várias rodadas de QE do Federal Reserve (Fed, BC dos EUA), talvez tivesse acontecido de qualquer maneira, mesmo sem estes programas de expansão de liquidez.

Shiller se diz menos certo sobre a firmeza da recuperação americana do que o consenso, embora não esteja prevendo uma recessão. Ele está preocupado com os ainda elevados níveis de endividamento e com o alto preço dos ativos, o que o faz temer uma correção.

Quanto à tese da “estagnação secular”, o prêmio Nobel a considera “um vírus de pensamento” cujo contágio tem se acelerado, e que recupera uma discussão dos anos 30. Mas isso não quer dizer que ele descarte a ideia: “Pode ser uma profecia auto-realizável, há um sentimento de pessimismo de longo prazo”, ele comenta. (fernando.dantas@estadao.com)

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