Temer e o canto das sereias

Escolha correta de política econômica por Michel Temer está sendo duramente testada pela lenta e sofrida recuperação da economia brasileira.

Fernando Dantas

31 de março de 2017 | 18h24

O presidente Michel Temer e seu grupo político estão sendo duramente testados. Um caminho foi escolhido, levando em conta a racionalidade que foi abandonada pela sua antecessora, mas as circunstâncias cada vez mais lembram o canto das sereias ao qual Ulisses teve que resistir na Odisseia.

As sereias no caso são o populismo, a doença política que impede que objetivos de bem-estar social de médio e longo prazo sejam perseguidos e alcançados em sociedades subdesenvolvidas, pois são soterrados pela distribuição de benesses ilusórias e insustentáveis de curtíssimo prazo.

Como em qualquer organismo vivo, a demanda por alívio imediato aumenta com a intensidade da dor. O populismo se alimenta do seu próprio fracasso, e por isso é tão resistente. O paciente que estava sofrendo e por momentos subiu ao paraíso com a droga milagrosa tende a exigir doses mais fortes quando a dor retorna. A turbulência dos ciclos de sofrimento e alívio dificulta enxergar que a melhor alternativa é o combate às causas da doença, e não aos seus sintomas.

Desde o início do governo Lula, o brasileiro médio viveu a euforia do auge do boom de commodities e agora enfrenta a pior recessão da história econômica mensurada. A semelhança com os ciclos descritos no parágrafo acima não é coincidência.

Hoje, o IBGE anunciou que o desemprego atingiu 13,2% no trimestre até fevereiro, com 13,5 milhões de brasileiros desempregados. É o nível mais alto desde pelos menos 1992, de acordo com a série retropolada da PNAD Contínua calculada por Bruno Ottoni e Tiago Barreira, do Ibre/FGV. Na verdade, a taxa de desemprego de fevereiro de 2017 está 2,3 pontos porcentuais acima do recorde anterior desde 1992, registrado em março de 2000 (10,9%).

Também nesta sexta-feira, o Ibope divulgou nova rodada de deterioração da popularidade de Temer. Hoje, a proporção dos brasileiros que considera que o atual governo é pior do que o de Dilma (41%) é mais que o dobro da proporção dos que acham o inverso (18%).

A aposta de Temer foi, sem dúvida, num programa para curar a doença, e não aliviar os sintomas. Por mais que se critique, com razão, o envolvimento do grupo político de Temer nas práticas venais (e criminais em vários casos) da política brasileira, não há dúvida que o atual presidente fez a escolha mais responsável e patriótica de programa de governo.

Mas sua opção tem um elemento crucial de timing. A política econômica racional que vem sendo implantada desde o início do seu governo conseguiu estabilizar o paciente em crise na UTI, mas a população só começará a sentir alguma melhora quando de fato a atividade econômica tiver uma recuperação mais robusta.

Todos os sinais, entretanto, são de que a retomada será sofridamente lenta, como apontam os últimos indicadores dos setores de serviço e do comércio e o IBC-BR de janeiro. O governo terá que cortar pesadamente os investimentos para cumprir a meta de déficit primário de 2017 – embora nenhuma voz sensata advogue política fiscal anticíclica num momento como o atual, o fato é que os necessários cortes no mínimo não ajudam a retomada.

Alguns culpam o BC por não ter cortado mais rápido os juros desde meados do ano passado. No entanto, qualquer pessoa que acompanhe de forma isenta e de cabeça fria a política monetária de qualquer país sabe que quase sempre funciona o “princípio do chuveiro”: debaixo do jato gelado, a pessoa vai rodando a torneira de água quente sem perceber nenhum efeito até que de repente a água vem pelando, e vice-versa. Isso pode valer tanto para a subida ou manutenção do juro num patamar elevado para controlar a inflação quanto para sua derrubada para estimular a economia.

A taxa de juros básica é um instrumento rombudo para controlar a demanda, e cobrar de qualquer BC uma sintonia fina e perfeita o tempo todo é simplesmente irrealista. A saída muito lenta até agora da colossal recessão que o Brasil viveu, portanto, é um dado da realidade, com a qual estrategistas no campo da economia e da política terão que aprender a conviver.

Na política, essa realidade claramente aumenta a aflição e a agonia e torna mais árdua e desafiante a tarefa de resistir à sereia do populismo. Todas essas tensões desaguam no crucial processo de reforma da Previdência, que deve estabelecer as bases do que Brasil será como país nos próximos anos, ou até mesmo nas próximas décadas.

Um quadro otimista pressupõe que, mesmo lentamente, a economia se recuperará o suficiente até 2018 para que seja eleito um governo que dê continuidade à atual política econômica. Este cenário naturalmente inclui um mínimo de recuperação da popularidade de Temer, já que um fracasso desastroso do seu governo alimentaria candidaturas populistas dispostas a sacrificar o médio e longo prazo em troca dos ganhos políticos das benesses imediatas.

O problema, porém, é que há uma dinâmica circular na determinação das chances de sucesso do governo na batalha da Previdência: para a estratégia econômica de Temer dar certo, é preciso aprovar a reforma; e para aprovar a reforma, é preciso que os parlamentares tenham a impressão de que a estratégia econômica de Temer vai dar certo – assim, o voto pró-governo os colocaria dentro do campo político que, de uma forma ou de outra, vai continuar a dar as cartas após 2018.

O futuro do governo Temer e da economia brasileira serão determinados por esse jogo entre os sinais presentes e as projeções para 2018 das interações entre economia e política. Não vai ser nada fácil. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 31/3/17, sexta-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.