Temer e o fantasma do desemprego

Situação do mercado de trabalho é calamitosa, e pouco se pode fazer para mudar o rumo a curto prazo. Mas Temer, caso assuma a presidência, tem que aproveitar a "lua de mel" normalmente concedida a novos governantes para uma ação enérgica na economia, que melhore as perspectivas do mercado de trabalho para 2017.

Fernando Dantas

20 de abril de 2016 | 18h41

É possível que o vice-presidente Michel Temer, na iminência de assumir a presidência, caso o Senado aceite a abertura do processo de impeachment aprovada na Câmara, sinta um frio na espinha ao tomar conhecimento dos números da Pnad Contínua de fevereiro, divulgados hoje. Em um ano, entre os trimestres encerrados em fevereiro de 2015 e 2016, o contingente de desempregados no Brasil subiu 3 milhões, de 7,4 milhões para 10,4 milhões. A taxa de desemprego deu um salto de 28%, indo de 7,4% para 10,2%. O rendimento médio real caiu 3,9%. Não é exagero considerar a atual situação do mercado de trabalho como calamitosa.

É conhecida a correlação entre o desemprego e outros indicadores do mercado de trabalho com a popularidade presidencial. É evidente que o novo presidente terá de início um período de lua de mel e de benefício da dúvida. Poucos o culparão pelas taxas de desemprego nos próximos meses. Mas haverá enorme expectativa de que Temer aja rápido no front econômico para reverter a situação desastrosa. Se a primeira leva de medidas falhar no objetivo de criar pelo menos uma expectativa tangível de melhora, rapidamente o novo governo herdará não só a crise econômica como boa parte da responsabilização por ela.

O ano de 2016 está praticamente perdido para o mercado de trabalho. Como explica Bruno Ottoni, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), especialista na área, “mesmo com as perspectivas de mudanças, as variáveis de trabalho tendem a ser menos voláteis e a responder mais lentamente do que a taxa de câmbio, a bolsa, etc.”. Em outras palavras, na melhor hipótese possível, de que o governo Temer deslanche com o máximo de sucesso, ainda assim o desemprego deve continuar crescendo, e a renda caindo, por um considerável período.

No entanto, uma boa largada do atual vice-presidente pode fazer diferença para 2017. Isso fica claro na própria incerteza que analistas têm em relação à evolução do desemprego no próximo ano. A projeção do Ibre, por exemplo, é de desemprego médio de 12,8% em 2017, depois de atingir 11,5% em 2016. Ottoni enfatiza que há bem mais incerteza em relação à previsão para o próximo ano.

Já as previsões de uma instituição financeira ouvida pela coluna é de desemprego médio de 11% em 2016 e de 10,9% em 2017. Chama a atenção que as projeções do Ibre e da instituição estejam afastadas em apenas 0,5 ponto porcentual para 2016, e em quase dois pontos porcentuais para 2017. É neste espaço, ou talvez num intervalo ainda maior, que residem as dúvidas sobre a capacidade de Temer de relançar a economia logo a partir do início do seu governo, sempre na suposição de que o Senado vote por receber o processo de impeachment.

Na verdade, há muito a perder no mercado de trabalho, porque a sua piora ainda está defasada em relação ao mergulho da economia. Cálculos do Ibre indicam, por exemplo, que o aumento da taxa de desemprego nos últimos 12 meses foi provocado em 90% pelo aumento da população economicamente ativa (PEA) e em apenas 10% pela redução da população ocupada (PO).

Esse fato não deve ser tomado como algo relativamente benigno. Na verdade, os jovens estão chegando ao mercado de trabalho e não conseguem se empregar. O desemprego da população entre 18 e 24 anos estava acima de 20% nos últimos dados da PME. Por outro lado, o prosseguimento do atual colapso econômico poderia atingir mais duramente a PO, e provocar desemprego em massa atingindo de forma mais intensa as faixas etárias médias. Nem é preciso pensar nos efeitos sociopolíticos de uma deterioração desse tipo no mercado de trabalho. Temer, se e quando assumir, tem que agir rápido. E não pode errar. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 20/4/16, quarta-feira.

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