Temer e o “teste de estadista”

Mal começou o jogo, e Michel Temer está sendo duramente testado politicamente. Ele deveria demitir Romero Jucá, ministro do Planejamento, e assumir os custos e os riscos desta alternativa, que é a "menos pior". (Esta coluna foi publicada antes da notícia do licenciamento de Jucá)

Fernando Dantas

23 de maio de 2016 | 17h57

O governo de Michel Temer está sendo testado politicamente nos primeiros minutos do primeiro tempo. Mal teve tempo de aquecer os músculos, e o presidente interino terá de mostrar se tem têmpera de estadista ou se está fadado a reeditar o governo Sarney. Romero Jucá, o ministro do Planejamento, foi profundamente ferido pelas gravações divulgadas hoje. Resta saber se Temer deixará que a inevitável infecção contamine todo o seu governo, ou se terá a coragem de demitir um poderoso corretor da política, que teria capacidade tanto para ajudar de dentro a gestão do novo presidente (se não tivesse sido atingido) como para sabotá-lo de fora, por vingança.

É sem dúvida uma situação perde-perde para Temer, que deveria, no entanto, enfrentar a perda menor de demitir Jucá.

Como nota o economista-chefe de um grande banco, a gravação de Jucá torpedeia em cheio a difícil montagem, que o governo vinha preparando desde a semana passada, de um primeiro movimento para abordar sua “missão impossível” de sinalizar que o monstruoso problema fiscal será resolvido.

Apesar da ansiedade do mercado pelo fato de que não houve ainda anúncios concretos de medidas, a divulgação da meta de déficit de R$ 170 bilhões teve o mérito, segundo o analista, de “ser realista, colocar tudo na conta e desinflar receitas”. Para ele, “o governo preparou o terreno para anunciar medidas que podem criar uma visão um pouco mais otimistas sobre o quadro fiscal a partir do ano que vem”. O economista nota também que os resultados da sondagem de confiança de maio da Fundação Getúlio Vargas, divulgados hoje, foram um pouco melhores.

Agora, porém, toda a energia política do governo será inevitavelmente desviada para lidar com o caso de Jucá. Assim como ocorreu com Dilma Rousseff em seu tumultuado segundo mandato, a eventual tentativa por Temer de abafar os escândalos e contemporizar com os envolvidos, em vez de enfrentar de forma direta o problema e cortar na carne, pode exaurir a sua capacidade de dar o intenso e necessário suporte político à dura agenda de medidas que está sendo costurada pela equipe econômica.

São esses temores que se refletem hoje no mercado – de forma até suave, se comparada com a gravidade do risco –, em que bolsa, dólares e juros têm um comportamento pior do que aquele que seria compreensível pelo mercado global, onde o dólar operava em alta moderada quando esta coluna foi escrita.

Outro analista, que chefia a análise econômica de uma grande área de gestão de recursos, nota que não é apenas o caso de Jucá que revela sinais preocupantes na administração política do novo governo. Esse gestor está preocupado com os sinais no Congresso e de dentro do próprio governo – como declarações recentes de Geddel Vieira Lima, ministro da Secretaria de Governo – de que aumentos de impostos são um item da pauta de ataque ao déficit fiscal que encontrará extrema resistência. Na sua visão, não é possível realizar o ajuste necessário sem aumento da carga tributária.

A lógica de Temer ter montado um ministério de políticos tradicionais, e não de notáveis, é a de facilitar a tramitação no Congresso das medidas econômicas. No momento em que um desses colaboradores políticos é politicamente abatido, como parece ser o caso de Jucá, a mesma lógica indica que deva ser substituído. Não é, de jeito nenhum, tarefa fácil ou isenta de riscos. Mas alguém que chega à presidência é, em teoria, uma pessoa preparada para enfrentar esse tipo de desafio. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 23/5/16, segunda-feira.

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