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Temer fez a coisa certa

Minha avaliação do primeiro ano de governo de Michel Temer: no balanço geral, escolhas acertadas que devem fazer o presidente entregar ao sucessor ou sucessora um país melhor do que aquele que pegou.

Fernando Dantas

12 de maio de 2017 | 19h30

O presidente Michel Temer fez a coisa certa no seu primeiro ano de mandato. Evidentemente, isso não quer dizer que não tenha havido erros, vacilações e trapalhadas, sempre presentes em conjunturas tão atribuladas como a atual. Para os progressistas em questões de comportamento, moral, meio ambiente, feminismo e direitos de minorias, também há muito o que criticar. É preciso, porém, avaliar o conjunto da obra. Considerando a turbulência econômica e a profunda crise institucional em que iniciou o seu mandato, Temer está agindo com rara lucidez.

A primeira virtude do atual presidente é o realismo. Ele compreendeu bem a natureza do seu mandato: um breve e dificílimo período de travessia, durante o qual a busca de popularidade a curto prazo seria suicídio político e desembocaria inevitavelmente na desmoralização que caracterizou o governo do ex-presidente José Sarney. Temer decidiu sabiamente governar para os livros de história, e não para aplacar a ansiedade imediata das praças e esquinas.

O segundo acerto de Temer foi eleger de forma inequívoca um programa central de governo. Os 13 anos de gestão petista foram caracterizados pela desconstrução proposital da coerência do embate ideológico, um artifício político muito característico do populismo.

Assim, nunca se soube ou se sabe ao certo se aquilo que líderes como Lula e Dilma falam é o que pretendem fazer. O discurso de esquerda pode ser seguido de ações liberais, como no segundo mandato de Dilma. Ou o discurso centrista pode ser simultâneo ao início de um grande desvio heterodoxo, como ocorreu no começo da gestão de Mantega na Fazenda. E há até momentos em que discurso e ações se casam, como no período da nova matriz econômica.

Já Temer elegeu claramente a plataforma liberal do programa “Uma Ponte para o Futuro” e pôs toda a energia política na tarefa de implementá-la. Se a ardileza populista traz muitas vantagens em termos de conquista e manutenção do poder, a clareza programática, em compensação, é bastante útil para governar bem.

Discurso e ações permanentemente alinhados, sem subterfúgios, têm a virtude de tanger numa só direção toda a máquina de governo e a máquina política do Congresso Nacional. Todos sabem o que o governo quer, e, portanto, sabem como ajudá-lo. Ou, quando escolhem atrapalhá-lo, têm dificuldade de o fazer de forma camuflada. Em todos os instantes, todos os atores percebem com clareza quem está de um lado e quem está do outro.

Outro trunfo de Temer, muito ressaltado por cientistas políticos como Carlos Pereira e Marcus Melo, foi montar um governo que efetivamente reflete a base aliada, com rateio de ministérios, agências e cargos de escalões inferiores de forma proporcional às bancadas dos partidos que o apoiam no Congresso Nacional. O grande impacto dessa “coerência proporcional” pode ser avaliado pelo fato de que, mesmo com baixíssima popularidade, Temer esteja conseguindo avançar com propostas politicamente difíceis como as reformas trabalhista e da Previdência.

Por outro lado, também deriva em parte desse loteamento proporcional de cargos o fato de que o governo Temer não esteja agradando feministas, ambientalistas, defensores de índios, críticos da liberalidade no porte de armas e outros grupos ligados à moderna agenda de direitos e de comportamento. Como é bem sabido, o Congresso Nacional é conservador, e agora não há o contrapeso da esquerda petista dentro do governo – que, diga-se de passagem, foi muito complacente em relação a essas questões com Dilma – para deter uma agenda mais à direita nesses temas.

Temer, por sua vez, embora não tenha como marca política a defesa enfática desse tipo de agenda conservadora, parece no mínimo indiferente e propenso a deixar as bancadas ruralista, evangélica, da bala, etc. obterem o que desejam, se este é o preço para aprovar suas reformas econômicas.

Legado – Finalmente, o presidente foi muito feliz ao escolher, como ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que confirmou sua reputação de excepcional montador de equipes, e de hábil defensor do espaço político que permite a estas equipes dar o melhor de si. Não por coincidência, Meirelles era também o nome da preferência de Lula para ministro da Fazenda de Dilma no segundo mandato.

No seu primeiro ano de mandato, o governo Temer teve o enorme mérito de ter estabilizado uma economia em pânico, passando vitoriosamente uma impressionante agenda no Congresso, e de ter pavimentado o caminho para uma retomada que teima em se retardar. É risível, entretanto, culpar o atual governo pela demora da recuperação e pela permanência do desemprego – sabidamente um indicador defasado – em níveis estratosféricos. É preciso muita má-fé intelectual para negar o dantesco desastre econômico provocado pela folia da nova matriz econômica e a durabilidade das suas consequências.

Se conseguir aprovar a reforma da Previdência e contar com um pouco de sorte, Temer terminará o seu mandato com a economia crescendo e uma popularidade provavelmente ainda baixa, mas em nível menos constrangedor. O principal é que entregará ao seu sucessor ou sucessora, sem sombra de dúvida, um País melhor do que aquele que pegou.

No mais, o presidente e seu grupo político, típicos representantes de uma forma de fazer política que está ruindo com a Lava-Jato, terão que se haver com a Justiça e com o julgamento moral dos brasileiros de hoje e de amanhã. Esta é uma faceta que certamente entrará na avaliação do legado de Temer pelas gerações futuras. Por outro lado, se o presidente perseverar no atual caminho, os livros de história também registrarão que terá feito um governo competente e responsável, que ajudou a melhorar o Brasil. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/5/17, sexta-feira.

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