Temer terá que se acostumar às vaias

Militância petista e movimentos sociais de esquerda passaram de vidraça à pedra e estão reagindo com energia ao impeachment. Temer não deve contar com o consolo dos aplausos (que provavelmente não virão, ao menos agora) por parte do outro lado, o movimento antipetista que foi a base para tirar Dilma da presidência.

Fernando Dantas

16 de maio de 2016 | 17h37

A saída da presidente Dilma Rousseff despertou os “animal spirits” da militância petista, dos movimentos sociais atrelados ao PT e de boa parte da esquerda em geral. Nas redes sociais, há uma explosão de indignação de pessoas desse lado do campo político-ideológico, que se reflete em adjetivos como “traidor” e “usurpador” reservados para Michel Temer, o presidente em exercício. Manifestações contrárias ao novo governo espocam em diversos cantos do País, e se os números não são impressionantes, não falta entusiasmo. Ontem, enquanto Temer falava ao Fantástico, houve panelaços em São Paulo, Rio e outras capitais e grandes cidades.

A proposta básica inicial do novo governo é a de atacar firmemente o desajuste fiscal, o que significa ou cortar programas, subsídios e benefícios, ou elevar impostos, ou uma combinação das duas frentes de medidas. Assim, a esquerda, despertada do torpor causado pelo naufrágio do governo Dilma, terá o trunfo adicional de ver reforçada sua tese de que a presidente afastada foi derrubada por forças de direita antipopulares que se propõem a destruir os avanços sociais da era Lula.

O antipetismo sempre foi bem mais alimentado pela crítica à corrupção do que à política econômica desastrosa que criou o abismo fiscal com que o País agora se vê defrontado. Ironicamente, a causa final do impeachment acabou sendo de natureza fiscal, mas isso não impede que a imensa indignação despertada por Dilma, Lula e o PT em parcela expressiva do eleitorado esteja mais vinculada a práticas corruptas do que a medidas equivocadas de gestão econômica.

Dessa forma, o principal avanço que Temer tem a oferecer à população, uma melhora expressiva da política econômica, não parece ser suficiente para despertar o ânimo do antipetismo, como contraposição à nova energia da tradicional militância de esquerda no ataque ao presidente em exercício.

No campo ético e da moralidade pública, é difícil que o novo governo desperte entusiasmo, com sua opção por um ministério de políticos tradicionais, vários dos quais aparecem na Lava-Jato. Houve citações, inclusive, contra o próprio Temer, embora não tenha sido pedido ao Supremo abertura de inquérito contra ele.

O ministério de raposas políticas, aliás, faz sentido numa estratégia para tentar passar no Congresso medidas politicamente difíceis. Mas não se faz omelete sem quebrar ovos. Não é um ministério que levará militantes anticorrupção às ruas para defender entusiasticamente o governo em exercício.

Tudo isso indica que Temer corre o risco de ser muito vaiado por um lado sem o benefício de ser aplaudido pelo outro. Ou seja, uma situação extremamente desconfortável para quem tem pela frente a ingrata tarefa de fazer com que políticos votem por grande maioria reformas que atingem benefícios dos mais diversos grupos de interesse, alguns deles reunindo dezenas de milhões de brasileiros (como os relativos à Previdência e programas sociais).

Uma possível saída para Temer, para contrabalançar o barulho crescente da militância de esquerda e dos movimentos sociais atrelados ao PT, é expor para a população com grande ênfase, insistência e detalhe todo o estrago econômico e os desvios éticos do governo anterior. Mas é uma estratégia problemática e com seus riscos.

A exposição do desastre na gestão da economia é relativamente mais fácil, embora seja um pouco esquisito que alguém que ocupou o cargo de vice-presidente do governo Dilma, chegou a ser coordenador político da presidente e presidiu o principal partido aliado da coligação transforme-se subitamente num crítico feroz da administração petista. Já em relação à corrupção, como já foi indicado, Temer e seu ministério não configuram exatamente o figurino de arautos da moralidade. Espera-se que o novo presidente tenha plena consciência da imensidão do desafio que começa agora a enfrentar.

(fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 16/5/16, segunda-feira.